ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

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“O Livro de Marianinha” de Aquilino Ribeiro… – Luísa Dacosta


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“O Livro de Marianinha” de Aquilino Ribeiro- leitura e notas à margem e um post scriptum para Maria Keil. artigo de Luisa Dacosta publicado no 2º número (Abril, 2000) da Revista malasartes [ cadernos de literatura para a infância e juventude ]. número esgotado!

Nota: não é de todo meu costume infringir direitos de autor, mas neste caso… como revista está esgotadíssima, o artigo é de uma qualidade excepcional. Se alguém se sentir lesado, por favor comunique.

Rui Marques Veloso sobre O Livro de Marianinha

«O Livro de Marianinha apresenta-se como um espaço de liberdade onde Mariana e todas as crianças que queiram nele penetrar poderão brincar com rimas de encanto, ouvir histórias espantosas, repetir lengalengas e trava-línguas que saltitam na boca, conhecer os pequenos bichos que dão alegria aos campos, aprender os ritmos que marcam a vida na aldeia e os saberes que passam de geração em geração. Tudo isto está aqui presente, dimensionado à medida dos leitores mais novos que, tal como Marianinha, ainda têm a pureza no olhar. A liberdade e o profundo amor peJa Natureza são valores que assumem um peso muito grande no legado que o autor quer deixar à neta.
Este último livro é um marco na vasta obra aquiliniana – na forma e no conteúdo nada há de semelhante ao longo dos cinquenta anos de criação literária de Aquilino Ribeiro. Nele se cumprem os ritos da palavra carregada de afectividade que preenchem os momentos mágicos do acompanhamento e do adormecer da criança. Trata-se de um texto riquíssimo, gerador de leituras distintas consoante a idade do receptor: o autor introduz sabiamente elementos que irão ser apreendidos peJa criança à medida que cresce e que vê o mundo com olhos mais experientes e receptivos. Não estranho, pois, que Mariana, em testemunho vivo, se tenha refe¬rido ao prazer de ouvir a avó a ler-lhe o livro e, mais tarde, esse prazer assentar já numa leitura pessoal, muito afectiva. Tinha-se cumprido o desejo de Aquilino.»

Rui Marques Veloso- A obra de Aquilino Ribeiro para crianças : imaginário e escrita. Porto : Porto Editora, 1994. p. 112-113

Nota: publicado também aqui.

Francisco Topa in Em torno da Obra “Infantil” de Aquilino Ribeiro

(…) «3.2. Arca de Noé – III classe
A síntese desta obra está de certa forma contida na espécie de prefácio que a sua edição inclui, na qual o autor explica o título algo enigmático: Arca de Noé – III classe refere-se à terceira e última divisão da célebre arca, na qual “é ponto de fé que embarcou a bicharada plebeia que aceitou Noé como amo, a saber: o burro, o cavalo, o elefante, a girafa, o macaco, o cão, o gato, o porco, a vaca, o coelho, a cabra, o galo, ralos, grilos, o compadre José Barnabé Pé de Jacaré e sua consorte Feliciana Luciana.” (p. 8).
Com efeito, trata-se de um conjunto de seis histórias em que todos esses animais tomam parte, por vezes associados a plantas da horta (como acontece na primeira, intitulada Mestre Grilo cantava e a Giganta dormia”). Geralmente de estrutura simples, a intriga constitui uma oportunidade para o retrato vivo e atento da vida animal.  A vasta gama de bichos surge-nos nas situações mais diversas: em diálogo perante o inusitado crescimento de uma abóbora que ameaçava destruir a habitação de Mestre Grilo (primeira história); no seio de uma companhia de saltimbancos em que os desentendimentos entre um elefante e um macaco que gostava de pregar partidas são quase constantes (História do macaco trocista e do elefante que não era para graças, em que voltamos a encontrar o urso Mariana); em franco conflito (História do Coelhinho Pardinho que ficou sem rabo, (…); ou ainda reunindo os seus esforços para recuperar um tesouro (História de Joli, cão francês, que boa caçada fez”). As duas restantes histórias serão consideradas à parte pelo facto de terem particularidades que as distinguem claramente das anteriores.
Tratando-se embora de textos muito simples, encontram-se nesta obra muitos dos recursos expressivos que tivemos oportunidade de observar no Romance da Raposa. Assim, temos o homeoteleuto originando epítetos humorísticos com que os animais se brindam mutuamente: “Patudo, orelhudo, nada lãzudo, tromba de canudo, andas ou fazes que andas?” (p. 32); “Girafa, gargalo de garrafa, mastro de cocanha, pernas de aranha!!!” (p. 42); “Elefante, bargante, besta importante!” (p. 42); “Coelhinho pintalegrete,/ Nem rabo nem galhardete” (p. 70).

Temos também um ou outro exemplo de curiosas metáforas colocadas ao serviço da descrição de uma característica física dos animais: “os coelhos marchavam atrás dele, animosamente, sem fazer contudo o mais pequeno rumor, o que pouco lhes custava dispondo como dispunham de solas silenciosas nos pés” (p. 54); ou comparações ainda mais surpreendentes pela sua originalidade e exactidão: “Os oh! e os ah! rebentavam como rolhas de champanhe nas bocas abertas” (p. 132). (…) »
Francisco Topa in Em torno da obra “infantil” de Aquilino Ribeiro (originalmente publicado em Rurália. Arouca.1992: 115-147)

(ler mais aqui)

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