ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

Tag Archives: melro

História do coelho pardinho que ficou sem rabo

~ as casas do coelho e o seu encontro com o melro pifarista, o lagarto com olhos de topázio e o escaravelho zangarelho~

«(…) Como todo o coelho que se preza fez duas casas: uma para o frio, no coração mesmo dum tojo, tão protegida dos ventos e dos maus olhados que a comadre raposa, excogitadeira, podia passar que não dava com ela; outra para os dias bons, à sombra dum sargaço, tão a salvo de surpresas que ao mais pequeno alarme se punha ao fresco.
Dali observava o mundo, quando não sonhava ou dormia, o que costuma a fazer a título de prudência só com um olho. A terra era bonita, bem bonita, sobretudo ao nascer do Sol, regadinha de claridade, quando as gotas de orvalho reluzem, as febras de erva verdegam e os galos para as aldeias atiram às alturas vibrantes cocoricós. Evidentemente o que mais o interessava eram os outros coelhos. Não raro acontecia virem dois, três pares até às abas da sua toca e para ele era regalo e ao mesmo tempo tormento vê-los brincar. Aos pulinhos, tap-tap, aqui paro tap-tap, além escuto, chapuz, uma sapatada, chitom, ponho-me a cismar na morte da bezerra, coçando o focinho cor-de-rosa, mascando um rebento de giesta, a vida estava para eles! Vontade não lhe faltava de sair a terreiro; mas lembrava-se que onde tivera um façanhudo apêndice existia apenas um coto de carnaval, e fero e ralado deixava-se ficar no covil.

coelhopardinho_1962_1976_23mdMeia manhã, o melro, pifarista infatigável, punha-se a tocar pratos ao desfastio:
─  Claxim-claxim-claxim!
À busca, talvez, de canto em que fazer ninho, mais uma tocata, e reparava nele:
─ Claxim-claxim-claxim! Viva lá seu galopim!!
─ Fui, fui galopim! Agora triste de mim! – malucava o coelho pardo, sem tugir.

Quando o sol mais aquecia um lagarto avançava pelo campo raso, frufru, a casaca amarela polvilhada de verde-musgo a faiscar, aceso nos olhos de topázio um raiozinho de luz. Ao mais subtil rumor estacava de cabeça ao alto a observar. Não era nada e prosseguia seu caminho. Às vezes, com arte e repente que ninguém lhe supunha, abria a boca e caçava uma mosca tão bem caçada que nem ela dava fé dos abismos em que caía. E, após o breve rnanjar, adiante. Espreitando, que são bichos curiosos e desconfiados, avistava o coelho.

coelhopardinho_1962_1976_26mdDele não tinha o sardãozinho medo e saudava:
─ Olá, seu morgado!
─ Morgado … do rabo cortado – ficava ele a magicar, sem arredar pé.
E o lagarto, frufrufru lá ia, sem melindres perante o desdém do coelhinho que perdera o gosto de proferir palavras vãs e era filósof, isto é, falava para consigo e para com Deus.
Atravessavam por cima dele as aves; os abelhões; as cabras-louras; as rolas gemiam, o cuco executava o seu solo de trompa. Vinha um escaravelho:
─ Zum!!! Zum!!!
Cego de todo, levado na cantilena, espetava-se pelo tojo dentro e fatalmente chocava-se com o coelhinho. E punha-se a fungar com muita ira:
─ Zum!!! Que raio de Cafarnaum!. ..
O coelho pardo tinha nojo e levantava-se a sacudir o indiscreto:
─ Zum?… Pois que te leve Barzabum!
O escaravelho zangarelho safava-se do arame farpado do tojo, retesava as patas e, ala, lá partia, zum! zum!!! E ele ficava de novo sozinho com as cismas: um campo de trevo com coelhinhas de olhos de fogo a cabriolar e a Lua nos altos céus, bochechuda, bochechuda, a guardá-las do bicho mau. E acabava por cair no sono, com um olho só, ora o direito, ora o esquerdo, como soldados que se revezam no plantão.

Ora uma noite, bela noite de quarto crescente, tendo saído a comer, o coelho percebeu estranha bulha na mata e à cautela foi-se pondo no seguro. Era uma colónia de coelhos que vinha instalar-se na vizinhança. Dianhos os levassem mais à barca que os passou! …

(…)» (AN, 1989, pp. 64, 65, 66)

%d bloggers like this: