ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

Tag Archives: macaco

História do macaco trocista e do elefante que não era para graças

macacotrocista_1962_1976_5md«Aquela companhia de saltimbancos trazia entre outros animais um elefante, uma girafa e um macaco. O elefante era o arre-burrinho de todos; tocava-lhe fazer os trabalhos pesados e mais difíceis, pois além de muito forte e submisso não era peco em inteligência. Ia à lenha para o lume, à fonte buscar água que transportava numa caldeira suspensa da tromba, e quando mudavam de terra a ele cabia carregar com barracas, gaiolas e caixas em cima do lombo, enquanto a girafa puxava uma leve carrocinha e o macaco não fazia outra coisa senão divertir-se e mostrar-se engraçado a torto e a direito. Este bicho irrequieto não parava um instante; tão depressa subia pelo pescoço da girafa como, pendurado pelo rabo, saltava para a cernelha do elefante, não achando nada melhor do que ir sentar-se no planalto das suas orelhas, donde se baloiçava e despedia as chufas do costume:

─ Patudo, orelhudo, nada lãzudo, tromba de canudo, andas ou fazes que andas? Minha lesma de paquiderme! ….
O elefante gostava pouco daquelas facécias e mais de uma vez estivera para atirar com ele ao chão; valera-lhe a intervenção da girafa que aparecia sempre com a bandeira da misericórdia nas disputas que estalavam entre os dois.

macacotrocista_1962_1976_7mdMas tantas vezes vai o cântaro à fonte que deixa lá a asa. Um dia o elefante perdeu as estribeiras com a mofa: furioso agarrou no símio pelo rabo e fê-lo andar à volta com toda a velocidade como se tratasse de lançar a pedra duma funda. E animado do fôlego todo jogou-o ao ar.

O macaco, como era leve, subiu, subiu muito alto e direito no céu; descreveu, em seguida, graciosa e lenta trajectória e foi cair por cima duma macieira camoesa que estava mesmo a vergar com as maçãs.
─ Nem sorte de cão ─ malucou consigo.
E, como a viagem pelo ar lhe fizera fome, rompeu logo em grande manducação. Comeu, atafulhou para o estômago, e de papo regalado, a tocar castanholas, se apresentou no acampamento.(AN, 1989, pp.31 e 32)

Anúncios

História do macaco trocista e do elefante que não era para graças

«(…) O macaco veio para o elefante com sete falinhas doces:
─ Não há dúvida, és um espertalhão. Sabes, sou teu amigo verdadeiro e tu também és meu. Não abanes as orelhas que me posso constipar com a corrente de ar. Agora sempre te digo: o teu defeito é seres peludo, peludo como um macaco, por dentro já se deixa ver, que por fora levas a palma à casca do carvalho. Ouve lá: queres tu vir a uma patuscada comigo? .. Não te hás-de arrepender … Gostas de mel? Pois se gostas, anda daí. Quero dar-te mel pelos beiços. .
O paquiderme hesitava, mas falar-lhe em mel era como acenar a porco com bolota. E confiado na sua perspicácia e não menos na sua fortaleza seguiu o macaco jurando consigo:
─ Se me enganas desta vez, mono do diabo, vês uma fona!
O macaco levou-o a um colmeal que acabava de ser crestado. Ao pé havia um casebre, com sua janela gradeada em parede de pedra e cal e porta com chave. Apontando a janelinha que estava aberta, mas defendida dos mal-intencionados por varões de ferro, proferiu o símio:

AN_1989_39md

Ilustração de Luis Filipe de Abreu

─ O mel está lá dentro. Eu salto, tu metes a tromba pela grade e vais apanhar um fartote que te há-de lembrar toda a vida.
─ Olha lá, antropóide amigo ─disse o elefante, quebrando a sua natural reserva ─ que abelhas são aquelas que entram e saem pela janela? ..
─ Se queres que te responda, não me dês tratamento de cerimónia. Nasci macaco, macaco hei-de morrer. Assim chamavam a meu avô e a meu trisavô que esteve na arca de Noé. As abelhas… …Devem ser abelhas vagabundas que andam atrás dos favos que lhes tiraram.
─ Não terão elas enxame na casa? … Não é a primeira vez que tal sucede …
─ Nada disso. Não vês os cortiços cá fora? Bem, eu vou entrar …
O macaco amachucou-se quanto basta para enfiar pelo vão da grade. Uma vez no interior ordenou para sócio na sua detestável gíria: .
─ Estende a mangueira …

A medo, pois era desconfiado e prudente, introduziu o elefante a tromba. Descendo, depois, no desconhecido., o seu imenso apêndice ia fairando. Não havia que duvidar; cheirava a mel que até crescia água na boca. O macaco lá dentro gritava:
─ Baixa mais, coraçãozinho, baixa mais! Afoito …
A tromba descia.
─ Baixa ainda, botão de oiro!
A tromba suspendia-se desconfiada nos espaços misteriosos.
─ Baixa, baixa , meu anjo.
Bem baixou ele, mas quando imaginava mergulhar na panela do mel caia em cheio de cima dum enxame. (…)» (AN, 1989, pp.38, 39 e 40)

%d bloggers like this: