ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

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História do burro com rabo de légua e meia

historiadoburro_1962_1976_5«Era uma vez um burro, verdadeiramente cor de burro a fugir, rijo de cascos, fino de orelhas, boa boca, com uma malha arruçada na testa que lembrava o malmequer e a estrela-do-mar. O dono, moleiro exacto na maquia, trazia-o bem tratado, pois não havia melhor para carregar as taleigas, com ele no meio das taleigas, e tropicar lesto como se não levasse mais do que penas em cima do lombo. O meritório e guapo burrico tinha, porém, um defeito, um enorme defeito. Não era teimoso como um burro, o que estava na ordem natural das coisas, nem como dois burros, nem ainda como dez, mas como cem burros a um tempo.

Quem porfiasse meter por determinado caminho não havia vozes, ralhos, arrochos que fossem capazes de o fazer desistir do seu burrical intento.
Ora nas abas da mui antiga vila de Valença, à beira do rio Minho, o que se chama à beirinha, possuía o moleiro um campo para onde costumava soltar o jerico a pastar. A erva era tenra, bem medrada e verde verdinha; crescia onde devia crescer e também nas margens, tão rente à água, que a corrente a afagava e anediava como a cabeleira desatada. O jumento, que era guloso, olhava para essas touceiras meio aquáticas, morto por lhes chegar os dentes. Mas sempre que ia a estender para lá o pescoço, o moleiro, como se não fizesse outra coisa senão estar a vigiá-lo, com a mão em cutelo dava-lhe nas orelhas para trás. E lá escapavam as ricas ervas! Havia, é certo, o seu perigo em colhê-las. O terreno era traiçoeiro. Mas deixá-lo! Embora timorato por índole, não nadando melhor que um prego, cada vez se sentia mais atentado pelo fruto proibido. Só de olhar para lá, crescia-lhe água na boca. De noite sonhava e via-se atolado na delícia de manducar à tripa forra a erva excelente. (…)» (AN, 1989, pp.129 e 130)

(transcrito daqui: Maio, mês dos burros )

Início da última e da segunda mais extensa narrativa d’A Arca de Noé, III classe: 24 páginas na edição de 1989. Se atentarmos ao que escreveu Aquilino Ribeiro, no seu posfácio, sobre o grau crescente de dificuldade das narrativas, esta será a menos acessível. Com efeito tanto a nível do tema – as tristes desventuras de um burro explorado em diversas vilas e cidades de Portugal – como formalmente –  são em número menor os diálogos e a diminuta a ocorrência do jogo fónico- esta é a história que menos me apelaria ler com crianças.
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