ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

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Toutinegra

«A velha ia assim traduzindo em rimance aquele latim das capoeiras, a par e passo que as contas puídas rolavam em seus dedos cascudos. Em plena desgarrada, um passarinho que tinha garganta de anjo desatou também a trinar. Devia ser a toutinegra, leve de sono e mais matutina que o melro, no quintal da Salamim. Era a sua uma vozinha espevitada, satisfeita, com requebros lânguidos e volatas agudas, espécie de padre-nosso pequenino rezado por uma criança. Vozeiravam os galos mais forte, e a toadilha prosseguiu, segura e maviosa como fio de água cadente no meio do arraial. E ela interrompeu a coroa a ouvir a arieta, que derramava sobre a terra cravos, açucenas, lírios brancos, e todas as flores de rosicler.»

Aquilino Ribeiro in Andam faunos pelos bosques 1983, Livraria Bertrand, S.A.R.L., Lisboa (p.98)

Notas:
1- Ler https://leraquilinoribeiromdlramos.wordpress.com/2017/07/21/a-noite-foi-dobando-e-comecaram-os-galos-a-cantar/excerto mais extenso.
2- Esta passagem integra também um dos excertos do Guia das Aves de Aquilino Ribeiro

Aquilino Ribeiro: “A quem se proponha ler a Arca de Noé, III classe”

Posfácio de Aquilino Ribeiro in Arca de Noé – III Classe  (3ª ed.)
Venda Nova: Bertand, 1989 -livro esgotado na editora

Introdução à Arca de Noé III classe

«Sabes, Riquinho, a história da Arca de Noé? Muito antiga, antigamente, o Criador, indignado com as criaturas, disse a Noé, a única que achou graça em seus olhos:
─ Vou afogar o mundo; mas olha, faz -me uma arca com três repartimentos: um em baixo; outro no meio; um terceiro em todo o cimo…

Este terceiro repartimento, está bem de ajuizar, é a III classe dos comboios que a gente de pequenas posses toma de terra para terra; é a mesma III classe que nos navios carrega emigrantes de continente para continente; era ainda a imperial das diligências, que há anos a esta parte, ao desembocar de rompante com as mulas guisalheiras das estradas nocturnas, acordava as vilas adormecidas.

E ordenou a Noé o Deus irado:
─ Dos seres vivos, quer andem de seu pé, caminhem de rastos ou voem, recolherás um casal na arca. Porque vai chover a potes, sem descanso, quarenta dias e quarenta noites, e tudo o que fora dela ficar perecerá.

Não rezam as Escrituras como distribuiu Noé o reino animal pelas três classes da sua nave. Supõe-se que na I e na II foram alojados os belos felinos e plantígrados que ainda hoje costumam aparecer em África e Ásia aos caçadpres reais e se mostram empalhados nos museus e complacentes nos jardins zoológicos. Na III classe é ponto de fé que embarcou a bicharada plebeia que aceitou Noé como amo, a saber: o burro, o cavalo, o elefante, a girafa, o macaco, o cºao, o gato, o porco, a vaca, o coelho, a cabra, o galo, grilos, o compadre José Barnabé Pé de Jacaré e sua consorte Feliciana Lauriana.

De fora da arca, por lá não caberem ou porque iria ao fundo com o peso, ficaram uns animalejos mais horrendos que o nome: o pliossáurio, cujo pescoço no meio das lagunas parecia mastro de anvio naufragado; o gigantossáurio, que media uns trinta metros de comprimento e era medonho; o tiaraunossáurio, que tinha cabeça de cavalo sem orelhas, corpo de canguru, rabo de lagarto, e flutuava no rios rios, metade submerso, como um madeiro. Ficaram ainda de fora os pterodáctilos, dragões voadores grotescos e feros; o triceratops, cuja cabeça reunia tudo o que há de mais horrível em matéria de carrancas, possuía patas de martelo-pilão, cauda de salamandra, e com a tromba armada duma relha de marfim abrira um canal mais fundo e mais de presa que uma draga; o pelicossáurio, cujo lombo era revestido de membrana que lembrava panóplia de lanças. Estes monstros foram recusados na arca e, como anunciara Deus, morreram; outros porém, que não consta terem sido aboletados na arca, tais os peixes e os cetáceos, porque a a´gua é o seu elemento, julgou-se Deus, e muito bem, dispensado de dizer que se não afogavam.

Dos passageiros da III classe, ó insaciável e curioso devorador de histórias, Ico Barrabico, se ocupam estas fábulas para teu passatempo urdidas e estampadas.
Lisboa, Primavera de 1936
A.R.»

(Aquilino Ribeiro in Arca de Noé- III classe, Livraria Bertrand, 1989, pp. 7 e 8)

Mestre grilo cantava e a giganta dormia

mestregrilo_1962_1976_5md«Era uma abóbora menina, muito redondinha, que saíra de uma flor tão grande e tão linda que de longe parecia pela forma um cálice de oiro, o cálice por onde os senhores bispos costumam dizer missa, e pelo brilho estrela caída do céu. Atraídas pela cor viva e o perfume, que era brando mas suave, zumbiam-lhe as abelhas em volta e um grilinho viera com a caixa de música às costas acolher-se à sua sombra e ali fizera a lura. Perto, dentro de seus buraquinhos, viviam dois ralos, e uma cigarra passava a maior parte do tempo empoleirada numa das folhas da aboboreira a cantar.
Ora, com os dias, a flor murchara e no seu pedúnculo começou a crescer a abóbora redondinha. Era na entrada do Verão e à força de comer do solo, e beber do regadio, um pouco também entorpecida pelo calor, levava a vida a dormir. Crescia e dormia, dormia e crescia. Passavam por cima dela as nuvens ligeiras como caravelas e não as via; cantavam as rolas e o cuco, deixá-los cantar; batiam os manguais nas eiras, chiavam os carros da lavoura e a tudo permanecia indiferente. Cresceu, cresceu, e já espigadota, certa noite, mais quente, estranho ruído acordou-a. Que fanfarra era aquela? Pôs- se à escuta. As rãs do charco clamavam:
─ Dai-nos sol! Dai-nos sol!
Curioso, não pediam rei, pediam sol:
─ Dai-nos sol! Dai-nos sol!
Os ralos e a cigarra acompanhavam:
─Solzinho! Solzinho! Solzinho!
O grilo arpejava:
─ E que rico, rico! Que rico, rico! Rico!
E os sapos lá do fundo do campo em coro trauteavam:
─ Sol, sol, sol! Sol, sol, sol, canta rouxinol! Sol, sol, sol!!!
Que tinham aqueles doidos para fazerem tal banzé em vez de aproveitar o tempo para dormir?! O grilo, que lhe ficava mais perto, foi quem mais a intrigou. Muito negrinho, todo entregue à inspiração, lá ia tocando os pratos, que é como quem diz movendo as asas de ébano, com risquinhas de oiro, dum lado para o outro. Que dianho de bicharoco tão patusco e ridículo que não deixava dormir à gente o soninho descansado! E não se contendo mais, gritou-lhe:
─ Eh lá, seu casaca! Você não pode calar a caixa? Com tal brequefesta como hei-de eu dormir?!
─ Ora a palerma! – retorquiu o grilo, escandalizado. ─  Não querem lá ver, tem-se na conta de menina e é tão mona. Ah! Sua calaceira, cante, cante connosco a chamar o Sol que se não demore muito detrás dos montes e nos traga alegria e claridade.
─ Estou mesmo para isso! Olhe, sabe que mais, outro ofício e deixe dormir quem tem sono.
─ Outro ofício!… Essa não é má! Saiba, sua estúpida, que eu nasci para cantar. Tenho-o como um dever. Quando não cantar, rezem-me por alma. E chocando as asas tornou à cantiguinha:
─ Sol rico! Rico, rico! Rico…
E, em coro, sapos, ralos, rãs, cigarras, respondiam pela várzea fora:
─  Sol, sol, sol! Sol… E embalada pela serenata da noite a aboborinha voltou a adormecer. (…)» (AN, 1989, pp.11,12,13)

História de Joli, cão francês, que boa caçada fez

jolicao_1982_1976_5md«Era uma vez um cego que ia pela estrada fora, com o cão Joli perdigueiro francês, à frente, preso por uma cordinha, não porque tivesse medo que lhe fugisse, mas para que o guiasse em sua escuridão. Ao passarem à beira dum moinho arruinado, o cachorro, pulando de repente, des¬prendeu-se e o dono pôs-se a gritar:
– Joli! Boca cá, Joli! Tu largas-me no meio da estrada?
Eu te ensinarei, Joli!
(…)
Quem primeiro encontrou foi uma vaca, uma vaca triste e invejosa, uma das sete vacas magras do Egipto, que espontava as ervas murchas dos caminhos e cismava tão atribuladamente na sua pouca sorte que até os olhos lhe fumegavam fel. Fosse pelos trabalhos que a burrinha de jolicao_1982_1976_9mdNossa Senhora padecera a fugir ao rei Herodes, as outras andavam nédias e gordas, só ela se via na espinha, mirrada, sem leite para o querido vitelinho que parecia mesmo ougado das bruxas. Coitado, nascera em mau presépio, o presépio daquele lavrador, tão mofino como ela, que, para pagar as contribuições, ano a ano se fora desfazendo dos bons prados e agora pouco mais tinha de seu que as sombras dos caminhos. E a vaca andava com esta malucação quando, sentindo grande rumor, ergueu a fronte bem armada e avistou o cachorro diante dela a botar fala:
– Ão-ão-ão! Ão-ão-ão!
– Hem?
– Ão-ão-ão! Tocas rabecão?.. Podes até tocar pratos, quem te pega! Mas eu cá não preciso, não sou mestra de filarmónica.
– Ão-ão-ão!
– Querias pão? Também eu, irmão.
E Joli, considerando que aquela vaca era capaz de fornecer matéria para um bom chocolate, mas de modo algum de inventar a pólvora, continuou na carreira, por ali abaixo, ao sabor da maré.(…) » (AN, 1989, pp.76)

O filho da Felícia ou a inocência recompensada

«Com a sua bolsinha de amostras às costas, tamancos ferrados trrape-trrape, carapuça na cabeça e quatro vinténs na algibeira, foi Pedro assentar praça. No quartel, depois que lhe deram o n.º 27, mandaram-no formar na parada. Botava uma boa mão-travessa acima dos mais altos. Embora mirolho, o sargento Viriato Sacatrapo não pôde deixar de reparar nele e exclamou com os ares superiores, próprios da sua patente, para um galucho que não é nada neste mundo:
─ Cáspite, que bela estampa de animal!
─ Animal será ele – replicou Pedro. Sou cristao e baptizado, Pedro da Felícía para servir a quem se der ao respeito.
─ Cala a boca, bruto! -gritou-lhe o sargento, meio encavacado, tanto mais que os oficiais riam à socapa, mas sem poder corar, porque de tez era mais vermelho que um tomate, mas um tomate a cair de maduro:
─ Mete-te na forma … Anda-me depressa! Estão prontos? … Meia volta à esquerda! …
Manobraram todos para o lado próprio, excepto Pedro, que rodou para a direita, contente que se não dissesse: um carneiro vai com os outros.
─ Idiota, não sabes distinguir a mão direita da mão esquerda? – perguntou o sargento instrutor no tom cacarejado e satisfeito de quem apanhou por baixo o irmão desastrado que lhe pisou os calos.
Em seu embaraço olhou o galucho ora para uma mão, ora para a outra, como se pela primeira vez visse tais extremidades do corpo ou lhe revelassem acerca delas qualquer coisa muito patusca em que não tivesse feito reparo.
─ Não sabes? … A direita é esta … esta. Espera, para te não enganares outra vez, mete-se-lhe lá uma pedra – e o sargento Viriato Sacatrapo procurou uma pedra que meteu na mão do recruta, acrescentando:
─ Aperta-a bem; não a deixes cair. Onde estiver a pedra, já sabes, está a mão direita. Percebeste? Deixa agora ver a outra mão … Repara bem, não tem nada dentro; é a esquerda. Não tem nada dentro, quer dizer, não tem lá a pedra. Estás percebendo? Temos, pois, que a mão que não tem pedra é a esquerda, es-quer-da-aaa …
─ Na minha terra chamam-lhe a canhota- observou Pedro.
─ Canhota ou esquerda é a mesma coisa. É contigo o nome que lhe queiras dar. O que eu te peço é que não esqueças: a mão que tem pedra é a direita; a mão que não tem pedra é a esquerda. Não custa nada a entender. Entendeste tu?
Acenou Pedro que sim e o sargento em voz heróica comandou:
─ Sentido! Esquerda volver … marche!
filhodafelicia97A coluna pôs-se em movimento na direcção indicada, salvo aquele troço que ficava aquém de Pedro e que ele não deixava avançar, tendo rompido o passo em sentido oposto e ali batendo a bota.
─ Meu alarve! – berrou o sargento. – Não te disse que a esquerda é do lado da mão que não tem pedra?… Mostra lá …
Abriu Pedro a mão e com o assombro de todos a pedra lá estava. Uma pedrinha pequenota como um ovo, branca, a rir-se daquilo tudo. Também os oficiais desataram às gargalhadas, enquanto o sargento corria para ele de punho fechado, julgando que era caçoada:
─ Mudaste a pedra, alma do diabo. Para que mudaste a pedra?
─ Não senhor, não mudei. Apanhei-a do chão.
O sargento deu-lhe uma cotovelada com desdém mas a certa distância, não fosse o bruto coucinhar. Pedro, como o roble que fica indiferente ao vendaval, nem estremeceu. Fez-lhe depois o sargento Viriato Sacatrapo deitar fora a pedra da mão esquerda e guardar a da mão direita; apertando-lhe em seguida os dedos contra ela, ensinou com santa paciência:
─ Esta é a direita, cavalo. A direita! Aquela, portanto, que não tem pedra é a esquerda.
─ Mas se a direita é direita porque tem a pedra, se eu meter também uma pedra na esquerda fica tão direita como a direita, ou está a mangar comigo? -respondeu o galucho, além de raciocinador, repontão.
Em resposta o sargento Viriato Sacatrapo deu-lhe uma estalada e Pedro, vendo-se ofendido e esquecendo-se de que não estava em arraial da sua terra, apanhou do chão a pedra do malefício, a pedra zombeteira, e com quanta força tinha jogou-lha à cabeça. E se bem que fosse duro o casco do sargento Viriato Sacatrapo e protegido por basta guedelha, o casco rachou e espichou o sangue.(…)  (AN, 1989, pp. 97, 98, 99)

“Repicam os sinos de Lisboa…”

«(…) Repicam os sinos de Lisboa,
a quem hão-de eles de repicar?
Não há charamela, teorba, sanfona,
que não soe a mais não poder soar.
Casa o marujinho da Catrineta
com uma princesinha Magalona.»

(ler todo o romancinho desta Nau Catrineta aqui )

Luísa Dacosta: “O Livro de Marianinha” de Aquilino Ribeiro

A ler, verdadeiramente deliciada o artigo de Luisa Dacosta “O Livro de Marianinha” de Aquilino Ribeiro- leitura e notas à margem e um post scriptum para Maria Keil”  publicado no 2º número (Abril, 2000) da Revista malasartes [cadernos de literatura para a infância e juventude ].
Ontem a arrumar as minhas estantes (arrumações de Verão) descobri este e o número 6 de 2001 que também queria consultar e que não encontrei na BMAG….

Transcrevi-o todinho para aqui …
Que bem que escreve Luísa Dacosta! Eis um excerto:

LuisaDacosta_MariaKeil_AquilinoRibeiro_malasartes

«Post Scriptum para Maria Keil- que tanto chorou no enterro de Aquilino por ele não ter tido o gosto de espreitar as ilustrações.

Um livro para crianças precisa realmente da respiração da imagem para elas chinclimpezarem* das letras para o desenho. Estas de tanta imaginação e cor, ora ensolarando o texto, ora entretecendo-se com ele, ora fazendo-lhe rodapé, ora remate, são maneirinhas, graciosas e cheias de infância. Algumas atingem mesmo o símbolo, como a da capa, e transformam o livro num imenso papagaio solar que fará a alegria das nossas mãos, dos nossos olhos e do nosso pensamento. São preciosas. Tornam o livro um todo exemplar. Um livro onde se deve escrever para que não leve sumiço:

“Livro meu, muito amado,
tesouro do meu saber
se algum dia te perder,
faça o favor de o restituir
quem houver de o achar,
senão ao inferno vai cair
com a cabeça para o chão
e os pés para o ar
até se afundir no caldeirão.”»

Luísa Dacosta in "O Livro de Marianinha" de Aquilino Ribeiro: Leituras e notas à margem e um post scriptum para Maria Keil. Malasartes: cadernos de literatura para a infância e a juventude, n. 2, p.19, abr. 2000.

—–

Nota: *”chinclimpezarem” termo inventado seguramente por Luísa Dacosta. No Glossário sucinto para melhor compreensão de Aquilino Ribeiro [por] Elviro da Rocha Gomes.Ribeiro  pelo menos não aparece nem o o encontrei em mais nenhum lugar …

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