ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

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Leva o corvo um recado

«Leva o corvo um recado
e está desnorteado.
Não ouves como berra
do céu para a terra:
-Coá! Coá! Coá!
É por aqui, ou por acolá?»

in O Livro de Marianinha (Bertrand, 2010, p. 67) fonte

“A casa em que nasci, Marianinha…”

acasaondenasci_marianinha-2«A casa em que nasci, Marianinha,
está voltada a Su-sueste
e tem à frente um cipreste
de atalaia à seara e vinha.

Casa já antiga, descaiada,
se o Sol lhe bate na fachada,
inunda-se a varanda de alegria;
tia Rita fia na roca
e dos buraquinhos da alvenaria
salta pardal com pardaloca.

À velha chaminé é um regalo
ver o fumo subir, fazer halo.
No montado, ouvem-se anhos balir
e derretem-se lantejoulas a luzir,
trouxe-as a Primavera no regaço
e espalhou-as pelo tojo, urze, sargaço,
sem desprezar trigal, jardim,
rampas, refúgio de erva ruim.

Manhã cedo, rompe a cantata,
nas árvores de fruto e pela mata.
Sol, Sol! ─ trauteiam os pardais,
tordos, melros e verdiais.
Sol, Sol! ─ pede o tuinho na balsa
e o auricu que apagou o candil na salsa.

E o Sol ergue-se por detrás dos montes,
e lá vem, sem olhar a vias nem pontes,
triunfal, contente como um ás,
com sua capa de arcebispo primaz.

Quem não ouve decerto sente
que vem salvando: ─ Olá, boa gente,
pássaros a voar e no ninho,
fonte, e tu a ladrar, cãozinho,
para que abram e nos deixem entrar.

Olá, meu amigo carvalho,
à minha espera no festo da colina,
e, no almarge, o carneiro do chocalho,
o cabrito, a cabrinha e até o chibo,
ronda-vos o lobo, mas sopro a neblina,
e vai mais longe buscar o cibo.
Salve, amigos, haja fartura e alegria!   (…)» (ler poema completo aqui )

Aquilino Ribeiro in O livro de Marianinha (1967)
Bertrand Editora, Lisboa, 1993, 2.ª ed., pp.11 a 14; 2010, 3ª ed.,pp. 15 a 18 (ver nota)

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