ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

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História do coelho pardinho que ficou sem rabo

coelhopardinho_1962_1976_5md«O avô dos coelhos era um coelho pardinho, pardinho, da cor que ainda hoje têm os coelhos do monte, olhos verdes, orelhas de acelga a nascer, e uma cauda felpuda e comprida levantada em aspa à moda dos esquilos. Passava por esperto e tinha o covil da parte de fora duma quinta murada em redondo por uma parede muito alta. Ora espreitando certo dia por um buraquinho, avistou lá dentro uma rica horta com couves, cenouras e grande variedade de legumes.
─ Hortaliça saborosa … aquela! ─ pensou o coelhinho, lambendo o beiço em seco. ─ Se eu lhe pudesse chegar o dente!… O dialho é aquele cachorro de maus fígados que está sempre na resmunguice: “Ão-ão-ão! foge que te agarro, ladrão!”

Naquela manhã pareceu-lhe o cão mais cordato e metendo a cabeça pela talada chamou:
─ Pst! pst! Tejo, ó Tejo! Dás-me uma folhinha de couve?… Tenho muita fome, quase me não aguento nas pernas … Dá-me uma couvinha dá …
Aborrecido e mal-humorado respondeu o cachorro:
─ Não, não, que ralha o meu patrão!
─ É só uma, Tejo, só uma … ─ tornou o coelhinho em voz humilde.
─ Não, não, não, que são do meu patrão! ─ repetiu o rafeiro e, confiado, deitou-se a dormir ao sol.
─ Avarento duma figa! ─ exclamou o coelhinho em voz alta, certo de que ninguém ouvia. ─ Deixa estar que tu mas pagarás … só se não puder!

Daí a instantes rebenta a um medonho ressonar. Devia ser o cão que passara a noite a correr pela quinta com medo que os larápios lhe fossem à horta ou ao meloal! Nem um órgão da Sé. Pelo sim, pelo não, o coelhinho foi espreitar pela fresta da parede.» (AN, 1989, pp. 51 e 52 )

História de Joli, cão francês, que boa caçada fez

jolicao_1982_1976_5md«Era uma vez um cego que ia pela estrada fora, com o cão Joli perdigueiro francês, à frente, preso por uma cordinha, não porque tivesse medo que lhe fugisse, mas para que o guiasse em sua escuridão. Ao passarem à beira dum moinho arruinado, o cachorro, pulando de repente, des¬prendeu-se e o dono pôs-se a gritar:
– Joli! Boca cá, Joli! Tu largas-me no meio da estrada?
Eu te ensinarei, Joli!
(…)
Quem primeiro encontrou foi uma vaca, uma vaca triste e invejosa, uma das sete vacas magras do Egipto, que espontava as ervas murchas dos caminhos e cismava tão atribuladamente na sua pouca sorte que até os olhos lhe fumegavam fel. Fosse pelos trabalhos que a burrinha de jolicao_1982_1976_9mdNossa Senhora padecera a fugir ao rei Herodes, as outras andavam nédias e gordas, só ela se via na espinha, mirrada, sem leite para o querido vitelinho que parecia mesmo ougado das bruxas. Coitado, nascera em mau presépio, o presépio daquele lavrador, tão mofino como ela, que, para pagar as contribuições, ano a ano se fora desfazendo dos bons prados e agora pouco mais tinha de seu que as sombras dos caminhos. E a vaca andava com esta malucação quando, sentindo grande rumor, ergueu a fronte bem armada e avistou o cachorro diante dela a botar fala:
– Ão-ão-ão! Ão-ão-ão!
– Hem?
– Ão-ão-ão! Tocas rabecão?.. Podes até tocar pratos, quem te pega! Mas eu cá não preciso, não sou mestra de filarmónica.
– Ão-ão-ão!
– Querias pão? Também eu, irmão.
E Joli, considerando que aquela vaca era capaz de fornecer matéria para um bom chocolate, mas de modo algum de inventar a pólvora, continuou na carreira, por ali abaixo, ao sabor da maré.(…) » (AN, 1989, pp.76)

História de Joli, cão francês, que boa caçada fez

jolicao_1989_77«A segunda criatura que topou foi um porco. Um porco que não merecia o nome de leitão, pois dava ares de nunca ter chupado na teta da mãe, e nunca seria cevado o pobre, a avaliar pela magreira que o afligia. Estava debaixo duma grande carvalha, arando a terra com o focinho, na esperança de descobrir qualquer bolotinha, visto que pérolas dera-as Deus. Coitado, tão héctico, tão chupado das carochas, metia dó. Mas a glande, a verde substancial glande, não caía, segura ainda aos ramos por um pedúnculo viçoso. E já que o veterinário lhe aconselhara extracto heróico de bolota, que a sua dona não lhe podia dar, visto não possuir carvalhos nem azinheiras, não se cansava de esperar que um vento repontão obrigasse aquelas árvores soberbas à obra de misericórdia. Lavrando, riscando o terreiro com a tromba infatigável, grunhia:
-Nem lande, nem grão, valha-me Santo Antão!
-Béu-béu-béu! Béu-béu! … Béu! – soltou Joli.
O bácoro na estica não gostou que o cachorro o viesse perturbar no trabalhinho, mas perante tanta insistência disse:
-Tiraram-te o chapéu? .. Coitado, pede ao bispo o solidéu.
-Béu-béu-béu!
-Teu pai era judeu? Pois que te preste. O meu não sei. Hum! hum! hum! – e voltou a grunhir e a procurar no chão as bolotas fortificantes. (…)» (AN, 1989, pp. 77,78)

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