ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

Category Archives: Sobre AR e a sua obra

Agustina Bessa Luís : “As novas gerações aprendem com Aquilino a honrar a linguagem.”

AgustinaBessaLuís-Aquilino1985Agustina Bessa Luís:  «As novas gerações aprendem com Aquilino a honrar a linguagem. Não é próprio do nosso tempo honrar seja o que for, a inflação da desonra é quase um mérito aconselhado. Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (sobretudo refiro-me às obras de grande densidade regional) e amará o seu verbo. Não é imprescindível; a cultura não é imprescindível. Pode-se passar sem ler Virgílio e Homero. Mas um dia deparamos com uma página assim e achamos que alguém esgotou na terra a sua energia e os seus dons. E o seu fantasma não anda disperso a tentar confundir-se à variedade de discursos e acções humanas para completar o seu ciclo criador. Porto, 23.3.1985.»

BESSA-LUÍS, Agustina
“Significado actual da obra de Aquilino Ribeiro” / Agustina Bessa-Luís. In: Revista Colóquio/Letras. Inquérito, n.º 85, Maio 1985, p. 92.

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Natércia Rocha in “Os livros que Aquilino Ribeiro escreveu para as crianças”

NaterciaRocha_Marianinha_mdNatércia Rocha, “Os livros que Aquilino escreveu para as crianças” (excerto) – in Aquilino Ribeiro- Boletim cultural Série VI, nº 05, Novembro 1985. p.52  (Ler texto completo)

“O Livro de Marianinha” de Aquilino Ribeiro… – Luísa Dacosta


……………………………..
“O Livro de Marianinha” de Aquilino Ribeiro- leitura e notas à margem e um post scriptum para Maria Keil. artigo de Luisa Dacosta publicado no 2º número (Abril, 2000) da Revista malasartes [ cadernos de literatura para a infância e juventude ]. número esgotado!

Nota: não é de todo meu costume infringir direitos de autor, mas neste caso… como revista está esgotadíssima, o artigo é de uma qualidade excepcional. Se alguém se sentir lesado, por favor comunique.

O livro de Marianinha (webfolio)

O webfolio no “livebinder” já está público.

Adoro este livro! Se tivesse que escolher um livro,  apenas um, de todos os que conheço para a infância, talvez escolhesse este. 

livebinderMarianinha

Rui Marques Veloso sobre O Livro de Marianinha

«O Livro de Marianinha apresenta-se como um espaço de liberdade onde Mariana e todas as crianças que queiram nele penetrar poderão brincar com rimas de encanto, ouvir histórias espantosas, repetir lengalengas e trava-línguas que saltitam na boca, conhecer os pequenos bichos que dão alegria aos campos, aprender os ritmos que marcam a vida na aldeia e os saberes que passam de geração em geração. Tudo isto está aqui presente, dimensionado à medida dos leitores mais novos que, tal como Marianinha, ainda têm a pureza no olhar. A liberdade e o profundo amor peJa Natureza são valores que assumem um peso muito grande no legado que o autor quer deixar à neta.
Este último livro é um marco na vasta obra aquiliniana – na forma e no conteúdo nada há de semelhante ao longo dos cinquenta anos de criação literária de Aquilino Ribeiro. Nele se cumprem os ritos da palavra carregada de afectividade que preenchem os momentos mágicos do acompanhamento e do adormecer da criança. Trata-se de um texto riquíssimo, gerador de leituras distintas consoante a idade do receptor: o autor introduz sabiamente elementos que irão ser apreendidos peJa criança à medida que cresce e que vê o mundo com olhos mais experientes e receptivos. Não estranho, pois, que Mariana, em testemunho vivo, se tenha refe¬rido ao prazer de ouvir a avó a ler-lhe o livro e, mais tarde, esse prazer assentar já numa leitura pessoal, muito afectiva. Tinha-se cumprido o desejo de Aquilino.»

Rui Marques Veloso- A obra de Aquilino Ribeiro para crianças : imaginário e escrita. Porto : Porto Editora, 1994. p. 112-113

Nota: publicado também aqui.

Luísa Dacosta: “O Livro de Marianinha” de Aquilino Ribeiro

A ler, verdadeiramente deliciada o artigo de Luisa Dacosta “O Livro de Marianinha” de Aquilino Ribeiro- leitura e notas à margem e um post scriptum para Maria Keil”  publicado no 2º número (Abril, 2000) da Revista malasartes [cadernos de literatura para a infância e juventude ].
Ontem a arrumar as minhas estantes (arrumações de Verão) descobri este e o número 6 de 2001 que também queria consultar e que não encontrei na BMAG….

Transcrevi-o todinho para aqui …
Que bem que escreve Luísa Dacosta! Eis um excerto:

LuisaDacosta_MariaKeil_AquilinoRibeiro_malasartes

«Post Scriptum para Maria Keil- que tanto chorou no enterro de Aquilino por ele não ter tido o gosto de espreitar as ilustrações.

Um livro para crianças precisa realmente da respiração da imagem para elas chinclimpezarem* das letras para o desenho. Estas de tanta imaginação e cor, ora ensolarando o texto, ora entretecendo-se com ele, ora fazendo-lhe rodapé, ora remate, são maneirinhas, graciosas e cheias de infância. Algumas atingem mesmo o símbolo, como a da capa, e transformam o livro num imenso papagaio solar que fará a alegria das nossas mãos, dos nossos olhos e do nosso pensamento. São preciosas. Tornam o livro um todo exemplar. Um livro onde se deve escrever para que não leve sumiço:

“Livro meu, muito amado,
tesouro do meu saber
se algum dia te perder,
faça o favor de o restituir
quem houver de o achar,
senão ao inferno vai cair
com a cabeça para o chão
e os pés para o ar
até se afundir no caldeirão.”»

Luísa Dacosta in "O Livro de Marianinha" de Aquilino Ribeiro: Leituras e notas à margem e um post scriptum para Maria Keil. Malasartes: cadernos de literatura para a infância e a juventude, n. 2, p.19, abr. 2000.

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Nota: *”chinclimpezarem” termo inventado seguramente por Luísa Dacosta. No Glossário sucinto para melhor compreensão de Aquilino Ribeiro [por] Elviro da Rocha Gomes.Ribeiro  pelo menos não aparece nem o o encontrei em mais nenhum lugar …

Francisco Topa in Em torno da Obra “Infantil” de Aquilino Ribeiro

(…) «3.2. Arca de Noé – III classe
A síntese desta obra está de certa forma contida na espécie de prefácio que a sua edição inclui, na qual o autor explica o título algo enigmático: Arca de Noé – III classe refere-se à terceira e última divisão da célebre arca, na qual “é ponto de fé que embarcou a bicharada plebeia que aceitou Noé como amo, a saber: o burro, o cavalo, o elefante, a girafa, o macaco, o cão, o gato, o porco, a vaca, o coelho, a cabra, o galo, ralos, grilos, o compadre José Barnabé Pé de Jacaré e sua consorte Feliciana Luciana.” (p. 8).
Com efeito, trata-se de um conjunto de seis histórias em que todos esses animais tomam parte, por vezes associados a plantas da horta (como acontece na primeira, intitulada Mestre Grilo cantava e a Giganta dormia”). Geralmente de estrutura simples, a intriga constitui uma oportunidade para o retrato vivo e atento da vida animal.  A vasta gama de bichos surge-nos nas situações mais diversas: em diálogo perante o inusitado crescimento de uma abóbora que ameaçava destruir a habitação de Mestre Grilo (primeira história); no seio de uma companhia de saltimbancos em que os desentendimentos entre um elefante e um macaco que gostava de pregar partidas são quase constantes (História do macaco trocista e do elefante que não era para graças, em que voltamos a encontrar o urso Mariana); em franco conflito (História do Coelhinho Pardinho que ficou sem rabo, (…); ou ainda reunindo os seus esforços para recuperar um tesouro (História de Joli, cão francês, que boa caçada fez”). As duas restantes histórias serão consideradas à parte pelo facto de terem particularidades que as distinguem claramente das anteriores.
Tratando-se embora de textos muito simples, encontram-se nesta obra muitos dos recursos expressivos que tivemos oportunidade de observar no Romance da Raposa. Assim, temos o homeoteleuto originando epítetos humorísticos com que os animais se brindam mutuamente: “Patudo, orelhudo, nada lãzudo, tromba de canudo, andas ou fazes que andas?” (p. 32); “Girafa, gargalo de garrafa, mastro de cocanha, pernas de aranha!!!” (p. 42); “Elefante, bargante, besta importante!” (p. 42); “Coelhinho pintalegrete,/ Nem rabo nem galhardete” (p. 70).

Temos também um ou outro exemplo de curiosas metáforas colocadas ao serviço da descrição de uma característica física dos animais: “os coelhos marchavam atrás dele, animosamente, sem fazer contudo o mais pequeno rumor, o que pouco lhes custava dispondo como dispunham de solas silenciosas nos pés” (p. 54); ou comparações ainda mais surpreendentes pela sua originalidade e exactidão: “Os oh! e os ah! rebentavam como rolhas de champanhe nas bocas abertas” (p. 132). (…) »
Francisco Topa in Em torno da obra “infantil” de Aquilino Ribeiro (originalmente publicado em Rurália. Arouca.1992: 115-147)

(ler mais aqui)

Rui Marques Veloso in A obra de Aquilino Ribeiro para crianças : imaginário e escrita

«A segunda obra para crianças que Aquilino Ribeiro escreveu tem o título de Arca de Noé III Classe e um destinatário específico – o filho Aquilino, que o pai trata carinhosamente por Riquinho e também por Ico Barrabico. Para este insaciável devorador de histórias, o autor criou seis contos que apresentam alguns pontos comuns com o romancinho destinado ao outro filho. Testemunha-nos Aquilino Ribeiro Machado que o seu pai afirmava a propósito destes dois livros: “É das melhores coisas que eu fiz como literatura.” (Testemunho registado durante um debate realizado na Fundação Calouste Gulbenkian e integrado no VI Encontro de Literatura para Crianças, em 07 -11-85.) O aparente exagero destas palavras não esconde a carga emotiva que rodeou a criação de histórias destinadas aos filhos e, em seguida, trabalhadas para publicação. (p.89)

(…) No plano da forma voltamos a encontrar alguns dos processos já utilizados no Romance da Raposa. Assim os artifícios rítmicos têm uma componente lúdica capaz de agarrar o leitor: a escolha dos nomes próprios das personagens, as aliterações, as onomatopeias são alguns dos processos que iremos ver mais em pormenor. O receptor que ainda não sabe ler delicia-se a ouvir as histórias, contanto que sejam bem contadas, isto é, que se respeitem os elementos fónicos e rítmicos que, por sua vez, são um suporte do universo diegético.

A simples leitura dos títulos indicia-nos uma temática afim e a exploração de aspectos rítmicos que se apoiam na oralidade. “História de Joli, cão francês, que boa caçada fez” ilustra isto mesmo. A galeria de animais que povoam esta Arca de Noé é vasta, uns intervindo activamente nos contos em que se inserem, outros meros figurantes.
Num testemunho pessoal, marcado por uma profunda sinceridade, Mestre Aquilino diz-nos, a propósito dos seus contos para crianças, que terá sido, de toda a prosa que escreveu, a mais “simples e colorida”. (Aquilino Ribeiro, Abóboras no Telhado, p. 340). (p.92 )   (…)»

Rui Marques Veloso in  A obra de Aquilino Ribeiro para crianças : imaginário e escrita. Mundo de saberes ; 12. Porto : Porto Editora, 1994.  ISBN 972-0-34082-7.

Ler mais aqui)

Natércia Rocha sobre o Romance da Raposa

«No mesmo ano (1924), Aquilino Ribeiro escreveu um livro dedicado a seu filho Aníbal, Romance da Raposa, editado por Aillaud& Bertrand. As ilustrações são de Benjamin Rabier, ilustrador francês muito apreciado. Nessa obra excelente, Aquilino isenta de classificações morais as atitudes e situações que envolvem os animais, embora os aproxime do Homem dando-lhes fala e raciocínio; mas os actos regem-se por leis de sobrevivência e não por critérios de bem ou de mal. Salta-Pocinhas, a raposa ladina, rouba e mata para comer e não ser comida. Texto riquíssimo de humor, ternura e ironia, musicalidade e “suspense”, a história de Salta-Pocinhas encanta as crianças; elas compreendem e sentem, mesmo quando as palavras são estranhas e misteriosas. Puxadas umas pelas outras, as palavras são prazer antes de revelarem o significado; dir-se-ia que são brinquedo, antes de serem ferramenta. O Romance da Raposa é uma das mais notáveis obras para crianças, escrita por autor português.»

Natércia Rocha in Breve História da Literatura Portuguesa para Crianças  CALP – Colecção Biblioteca Breve – Volume 97, 1992, p.60 (pesquisar na Biblioteca Digital Camões aqui)

“Celebrar Aquilino” por Vasco Graça Moura

Publicado no DN
«Com as celebrações dedicadas a Aquilino Ribeiro no cinquentenário da sua morte, vai voltar a verificar-se uma situação deveras paradoxal. Estaremos a homenagear um dos maiores escritores portugueses de todos os tempos, mas trata-se de um autor que ninguém ou quase ninguém das novas gerações é capaz de ler pela razão singela de que não percebe o sentido de muitas das palavras que ele utiliza. Isto já acontece com outros escritores. Ninguém pode garantir que os estudantes saiam da escola em condições de ler Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós ou Vitorino Nemésio. Mas no caso do autor de Andam Faunos pelos Bosques, a incapacidade e a desmemória são chocantes, para não dizer escandalosas. (…)» 

 

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