ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

Category Archives: Maria Keil

“O Livro de Marianinha” de Aquilino Ribeiro… – Luísa Dacosta


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“O Livro de Marianinha” de Aquilino Ribeiro- leitura e notas à margem e um post scriptum para Maria Keil. artigo de Luisa Dacosta publicado no 2º número (Abril, 2000) da Revista malasartes [ cadernos de literatura para a infância e juventude ]. número esgotado!

Nota: não é de todo meu costume infringir direitos de autor, mas neste caso… como revista está esgotadíssima, o artigo é de uma qualidade excepcional. Se alguém se sentir lesado, por favor comunique.

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“A casa em que nasci, Marianinha…”

acasaondenasci_marianinha-2«A casa em que nasci, Marianinha,
está voltada a Su-sueste
e tem à frente um cipreste
de atalaia à seara e vinha.

Casa já antiga, descaiada,
se o Sol lhe bate na fachada,
inunda-se a varanda de alegria;
tia Rita fia na roca
e dos buraquinhos da alvenaria
salta pardal com pardaloca.

À velha chaminé é um regalo
ver o fumo subir, fazer halo.
No montado, ouvem-se anhos balir
e derretem-se lantejoulas a luzir,
trouxe-as a Primavera no regaço
e espalhou-as pelo tojo, urze, sargaço,
sem desprezar trigal, jardim,
rampas, refúgio de erva ruim.

Manhã cedo, rompe a cantata,
nas árvores de fruto e pela mata.
Sol, Sol! ─ trauteiam os pardais,
tordos, melros e verdiais.
Sol, Sol! ─ pede o tuinho na balsa
e o auricu que apagou o candil na salsa.

E o Sol ergue-se por detrás dos montes,
e lá vem, sem olhar a vias nem pontes,
triunfal, contente como um ás,
com sua capa de arcebispo primaz.

Quem não ouve decerto sente
que vem salvando: ─ Olá, boa gente,
pássaros a voar e no ninho,
fonte, e tu a ladrar, cãozinho,
para que abram e nos deixem entrar.

Olá, meu amigo carvalho,
à minha espera no festo da colina,
e, no almarge, o carneiro do chocalho,
o cabrito, a cabrinha e até o chibo,
ronda-vos o lobo, mas sopro a neblina,
e vai mais longe buscar o cibo.
Salve, amigos, haja fartura e alegria!   (…)» (ler poema completo aqui )

Aquilino Ribeiro in O livro de Marianinha (1967)
Bertrand Editora, Lisboa, 1993, 2.ª ed., pp.11 a 14; 2010, 3ª ed.,pp. 15 a 18 (ver nota)

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O livro de Marianinha (webfolio)

O webfolio no “livebinder” já está público.

Adoro este livro! Se tivesse que escolher um livro,  apenas um, de todos os que conheço para a infância, talvez escolhesse este. 

livebinderMarianinha

“Repicam os sinos de Lisboa…”

«(…) Repicam os sinos de Lisboa,
a quem hão-de eles de repicar?
Não há charamela, teorba, sanfona,
que não soe a mais não poder soar.
Casa o marujinho da Catrineta
com uma princesinha Magalona.»

(ler todo o romancinho desta Nau Catrineta aqui )

“Menino venha ao arraial…”

meninovenhaaoarraial_livrodemarianinha«Menino, venha ao arraial
ver como se dança a chula!
Chamem-lhe cafre, chamem-lhe chula,
não há outra em Portugal.
Melhor a dança quem mais pula,
dança-a o velho e o novo,
para a chula tudo é igual.
Salta, salta meu povo,
a vida são dois dias
cantar e dançar as alegrias. (…»
In O Livro de Marianinha (2010), p.46

fonte da imagem

Luísa Dacosta: “O Livro de Marianinha” de Aquilino Ribeiro

A ler, verdadeiramente deliciada o artigo de Luisa Dacosta “O Livro de Marianinha” de Aquilino Ribeiro- leitura e notas à margem e um post scriptum para Maria Keil”  publicado no 2º número (Abril, 2000) da Revista malasartes [cadernos de literatura para a infância e juventude ].
Ontem a arrumar as minhas estantes (arrumações de Verão) descobri este e o número 6 de 2001 que também queria consultar e que não encontrei na BMAG….

Transcrevi-o todinho para aqui …
Que bem que escreve Luísa Dacosta! Eis um excerto:

LuisaDacosta_MariaKeil_AquilinoRibeiro_malasartes

«Post Scriptum para Maria Keil- que tanto chorou no enterro de Aquilino por ele não ter tido o gosto de espreitar as ilustrações.

Um livro para crianças precisa realmente da respiração da imagem para elas chinclimpezarem* das letras para o desenho. Estas de tanta imaginação e cor, ora ensolarando o texto, ora entretecendo-se com ele, ora fazendo-lhe rodapé, ora remate, são maneirinhas, graciosas e cheias de infância. Algumas atingem mesmo o símbolo, como a da capa, e transformam o livro num imenso papagaio solar que fará a alegria das nossas mãos, dos nossos olhos e do nosso pensamento. São preciosas. Tornam o livro um todo exemplar. Um livro onde se deve escrever para que não leve sumiço:

“Livro meu, muito amado,
tesouro do meu saber
se algum dia te perder,
faça o favor de o restituir
quem houver de o achar,
senão ao inferno vai cair
com a cabeça para o chão
e os pés para o ar
até se afundir no caldeirão.”»

Luísa Dacosta in "O Livro de Marianinha" de Aquilino Ribeiro: Leituras e notas à margem e um post scriptum para Maria Keil. Malasartes: cadernos de literatura para a infância e a juventude, n. 2, p.19, abr. 2000.

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Nota: *”chinclimpezarem” termo inventado seguramente por Luísa Dacosta. No Glossário sucinto para melhor compreensão de Aquilino Ribeiro [por] Elviro da Rocha Gomes.Ribeiro  pelo menos não aparece nem o o encontrei em mais nenhum lugar …

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