ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

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“A noção de bem e de mal- Aquilino Ribeiro, O Romance da Raposa” por Vasco Pulido Valente

Comentário: Lê- se o texto com agrado, conhecendo-se e apreciando-se a picardia iconoclasta do estilo de VPV, não podendo deixar de concordar sobre a apreciação certeira do carácter imoral e pouco edificante da “matreira raposa”. Leio com agrado até quase ao fim. Até aos considerandos depreciativos sobre o valor da prosa de AR. Como felizmente recriminou Pedro Mexia (ver nota) «Dizer que Aquilino é um escritor “medíocre” é uma bojarda. Sobretudo vindo de quem já elogiou Clara Pinto Correia.»

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«A mãe lê ao filho doente uma história infantil. Só falta dizer que a voz da mãe é doce e que o filho, ardendo em febre, a ouve com os olhos muito abertos. As propriedades apaziguantes do amor da mãe e a febre, muito boa para dissolver as fronteiras entre o fantástico e o real, fazem que o filho se lembre da história até ao fim da vida, com as emoções apropriadas. É este o estereótipo da descoberta do primeiro livro: exacto, porque as mães antigas (da classe média) aproveitavam as doenças dos filhos para lhes ler coisas; e também tão repelentemente edificante como seria para desejar.

Aconteceu comigo. Com uma pequena diferença a que atribuo alguma importância: a heroína da história que a minha mãe me leu, por inadvertência ou, esperemos, por desígnio, era uma criatura magnífica sem uma única, solitária, virtude. Assassina, traidora, ladra, mentirosa, vigarista, gabarola, promíscua, anárquica e ateia, Salta-Pocinhas, “raposeta matreira, fagueira e lambisqueira”, entrou por ali dentro na sua santa glória de animal predatório, disposta a dar cabo dos outros para encher a barriga ou consolar a alma, sem remorsos, sem desculpas e, sobretudo, com o irreprimível prazer da caça e o legítimo orgulho das suas criminosas habilidades.

O princípio da carreira de Salta-Pocinhas é instrutivo. Posta na rua pelos pais, já fartos de a sustentar, foi largada no mundo com o conselho explícito de conduzir a sua “vidinha segundo as regras do amor pelo” (ao pêlo dela, entenda-se). Não se esqueceu deste bom conselho. Andava há três dias pela floresta, esfomeada e sem toca, quando ouviu dizer que o texugo Salamurdo “pilhara pata”. Muito bem: descobriu a morada do texugo e pediu-lhe a pata. Primeiro com humildade: “Ó meu rico senhor, tenha dó.“ O texugo não teve. Salta-Pocinhas passou à invectiva: ”Ó texugo Salamurdo, narigudo, barrigudo, alma de besugo, larga a pata! … Larga a pata! …” O texugo não largou e, como cidadão respeitável, resolveu ir queixar-se à autoridade, o lobo Brutamontes. A raposa seguiu-o e, pela conversa de Salarmurdo com Brutamontes, ficou informada de que o lobo estava com dores de dentes.

Logo que, garantida a manutenção da ordem, Salamurdo se retirou, Salta-Pocinhas apresentou-se a Brutamontes e persuadiu-o de que o melhor remédio para a dores de dentes consistia em “pele de texugo ainda quente, acabadinha de esfolar”. O lobo, estúpido como compete à autoridade, partiu à procura de Salamurdo. Salta-Pocinhas assaltou-lhe imediatamente a dispensa onde existiam uns cordeiros e depois certificada a oportuna morte de Salamurdo, instalou-se na toca dele, onde existia a pata. Perfeito.

Por tais métodos Salta-Pocinhas se estabelece na sociedade e, por eles, dali em diante sobrevive. É consolador verificar que, neste romance, em que os bichos falam, a heroína mata pessoas, para comer ou por conveniência política. Não mata um simples coelho, animal e anónimo, mata um coelho adolescente a quem chama “meu menino” e meu querido” e promete levar a casa da mãe, para o persuadir a sair do buraco. Ele sai e “as palmas aveludadas” da Salta-Pocinhas caem-lhe em cima e “armarfanharam-no”. Como noutra altura, não atrai um gato bravo a uma ratoeira, armada para ela, atrai o gato bravo, escrivão da comarca, de quem, aliás, não gosta. Nenhuma das suas esplendorosas torpezas se deve confundir com costumes exclusivos de bichos: são todas aplicações estritas da regra ecuménica do “amor ao pêlo”. A moral de Salta-Pocinhas é, ao mesmo tempo, a moral do oprimido, cuja honra está em ficar vivo, e a moral do mais puro liberalismo, que, precisamente, em nome de Darwin, não distingue entre o homem e a natureza.

Nestas matérias, a CIP e os oráculos da iniciativa privada podiam aprovar a raposa. Mas Salta-Pocinhas exibe a sua heterodoxia de maneiras menos pacíficas. É má mãe: com os filhos cheios de fome, começa por caçar para ela. Detesta crianças, Deus a abençoe, e já velha, feita ama de raposinhos com pais ausentes, não hesita em roubar-lhes da boca a “ave tenra ou o lebracho de leite”. Eles, se quiserem, que “guinchem”. Como provavelmente “guincharam” os alunos de uma escola particular em que ela ensinava os grandes princípios da sua filosofia, quando foram apanhados por caçadores e Salta-Pocinhas se “esgueirou” pela “porta da traição”.

Velha, de resto, sim, e mesmo surrada, entrevada, desdentada, reduzida a esmolas e expedientes. Só que, nem na última extremidade, Salta-Pocinhas se rende e regenera. Pelo contrário, requinta. É uma viúva alegre, que frequenta festas dúbias com raposões casados e que evidentemente as fêmeas domésticas odeiam. Junta-se ao seu pior inimigo, o lobo, para o explorar e meter em sarilhos. E acaba por conseguir que os outros bichos lhe paguem uma reforma, com a mais abominável das falcatruas.

Aquilino Ribeiro achava que o Romance da Raposa era um livro adequado a crianças de 10 anos. Não sou capaz de imaginar porquê. Mas, julgando por mim, sem dúvida que é. Quando depois li os romances “para adultos” do “mestre”, a sua tão admirada prosa pareceu-me (e continua a parecer-me) um horroroso crochet provinciano, que cresce em direcção a coisa nenhuma e revela apenas a sua essencial vacuidade.
Com a sua métrica de cantilena, as suas rimas internas, as suas sistemáticas aliterações, a história de Salta-Pocinhas, permanece um inadulterado prazer: a voz certa que fala do sítio certo. A voz da violência sem disfarce, da liberdade primordial, da alegria física de lutar e ganhar. Se a raposa tem saudades do seu raposo morto, não é de qualquer ternura cristã, mas de ir com ele à caça. E quem não invejará as “desaforadíssimas gargalhadas”, com que Salta-Pocinhas celebra as suas patifarias?
Como John Mortimer dizia do pai, devo agradecer a Aquilino ter-me deixado, depois do meu primeiro livro, sem a mais vaga noção de bem e de mal. É uma dívida inestimável.»

VALENTE, Vasco Pulido. “A noção de bem e de mal: Aquilino Ribeiro, O Romance da Raposa”. In:  Às avessas. Lisboa: Assírio & Alvim, 1990. p. 45-47.

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Comentário de Pedro Mexia (no blogue Estado Civil) a propósito do que escreve Pulido Valente no antepenúltimo parágrafo deste texto:

«A doença infantil do direitismo é a “boutade”. Sobretudo no meio cultural. Sendo o “regime” de esquerda, o direitista aprecia acima de tudo as provocações gratuitas. Mesmo que sejam patetas.
Sou um assumido admirador de Vasco Pulido Valente; mas dizer, como ele disse, que Aquilino é um escritor “medíocre” não passa de uma “boutade”.
É normal que não se aprecie o estilo de Aquilino, os regionalismos cansativos, o pícaro programático, o virtuosismo exibicionista. Mas há que ter sentido das proporções e das palavras.
Dizer que Aquilino é um escritor “medíocre” é uma bojarda. Sobretudo vindo de quem já elogiou Clara Pinto Correia.»  
http://estadocivil.blogspot.pt/2007/09/aquilino-2_19.html

 

“…uma flor tão grande e tão linda…”

umaflortaograndeetaolinda-002(a brincar…poderia dividir as pessoas em dois grupos: as que conhecem de cor estas palavras…_ou pelo menos se lembram deste início da história _e aquelas que nunca as ouviram, leram ou repetiram)

Estamos na altura ideal para contar esta história pois as flores de abóbora andam por aí…

Horizontes da Memória – Terras do Demo

“O que está feito, está feito / viva o meu amor-perfeito!”

oquestafeitoestafeito_marianinha_aquilino_ribeiro1«O que está feito está feito,
viva o meu amor-perfeito!» (p.51)

“Rompe logo um coro em tom maior…”

rompelogoumcoro_marianinha_aquilino

Ler o poema completo aqui

Agustina Bessa Luís : “As novas gerações aprendem com Aquilino a honrar a linguagem.”

AgustinaBessaLuís-Aquilino1985Agustina Bessa Luís:  «As novas gerações aprendem com Aquilino a honrar a linguagem. Não é próprio do nosso tempo honrar seja o que for, a inflação da desonra é quase um mérito aconselhado. Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (sobretudo refiro-me às obras de grande densidade regional) e amará o seu verbo. Não é imprescindível; a cultura não é imprescindível. Pode-se passar sem ler Virgílio e Homero. Mas um dia deparamos com uma página assim e achamos que alguém esgotou na terra a sua energia e os seus dons. E o seu fantasma não anda disperso a tentar confundir-se à variedade de discursos e acções humanas para completar o seu ciclo criador. Porto, 23.3.1985.»

BESSA-LUÍS, Agustina
“Significado actual da obra de Aquilino Ribeiro” / Agustina Bessa-Luís. In: Revista Colóquio/Letras. Inquérito, n.º 85, Maio 1985, p. 92.

Ler Aquilino na Escola: a oportunidade sempre adiada

De vez em quando, pelo menos desde 1985, ano em que se celebrou o centenário do seu nascimento,  e quase sempre por altura de similares comemorações, verifica-se  um ténue movimento de  protesto contra a pouca importância que na escola se dá a Aquilino Ribeiro e ao facto de ter sido “esquecido”.

Isso é infelizmente verdade no ensino básico, principalmente nos 1º e 2ºs ciclos.  

Com efeito, no anterior programa de português ainda se encontrava a sugestão de leitura (no 2º ciclo) de dois contos da Arca de Noé -III classe: “Mestre Grilo cantava e a giganta dormia” (para o 5º ano) e a “História do burro com rabo de légua e meia” (para o 6º); este último aliás, na minha opinião, completamente desadequado para este nível etário, sendo a menos engraçada e acessível das narrativas da Arca de Noé-III classe).

No Novo Programa de Português do Ensino Básico (homologado em março de 2009) a única obra de Aquilino Ribeiro aconselhada é, para o 9º ano, a adaptação da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto– que também aparecia indicada para o mesmo nível, no programa anterior.  E esta é a única obra com a marca de Aquilino Ribeiro aconselhada nas Novas Metas Curriculares (para o Ensino Básico), nas listas de obras “obrigatórias” para a iniciação à educação literária.

Das listas do Plano Nacional de Leitura a ausência das obras para a infância de Aquilino Ribeiro é igualmente incompreensível. Arca de Noé – III classe, O Livro de Marianinha, Romance da Raposa …nem rasto!
O facto de esta última obra aparecer na fantástica versão em Banda Desenhada de Artur Correia, mas na lista aconselhada para Formação de Adultos (CNO), leva a que em muitos sítios o Romance da Raposa na versão original apareça com o selo e a menção do PNL: Ler+. Mas não, o PNL ignorou as três obras primas da literatura para infância da autoria de Aquilino Ribeiro. Para o 1º e 2º ciclos não há nada, nenhum som de lengalenga, de cantiga, de toadilha…
Das listas do PNL encontram-se para o 3º ciclo, O Malhadinhas / Mina de diamantes (para o 8º ano), a adaptação da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto (para o 9º ano) e A Casa Grande de Romarigães para o secundário.

Pensar que a miudagem, os professores (estes querem cumprir o programa e as metas, não me digam que podem fazer o que lhes apetece), os familiares se poderiam divertir com “as lengalengas e toadilhas em prosa rimada” d’O Livro de Marianinha, e com as aventuras do “Macaco Trocista…”, do “Coelho Pardinho...“, do “Joli, cão francês…”, e claro do “Mestre Grilo…”. da Arca de Noé- III classe!

E que adequada não é a narrativa (desse mesmo livro) “O filho de Felícia ou a Inocência recompensada” para um 7º e/ um 8º ano. E o Romance da Raposa ? (tanto a versão original como a fantástica adaptação em banda desenhada).
Entretanto os livros esgotam (por ex. a BD de Artur Correia ) e são até mesmo “descontinuados” (como é o caso da Arca de Noé -III classe).
Não dá para entender!

Será que não conhecem, não gostam, acham difíceis?
Não podem ser essas as razões. Quais são, francamente não consigo imaginar.
Mas para quem não conhece, não gosta, acha dificil e sobretudo para quem conhece, gosta e acha bem e bom que sejam difíceis, aqui fica um link: as obras para a infância e a juventude de Aquilino Ribeiro, cujos conteúdos reproduzi em parte neste blogue. A minha contribuição neste ano de comemorações.

manueladlramos

Natércia Rocha in “Os livros que Aquilino Ribeiro escreveu para as crianças”

NaterciaRocha_Marianinha_mdNatércia Rocha, “Os livros que Aquilino escreveu para as crianças” (excerto) – in Aquilino Ribeiro- Boletim cultural Série VI, nº 05, Novembro 1985. p.52  (Ler texto completo)

“Narrativas de que se compõe a Arca de Noé – III classe”

«NARRATIVAS DE QUE SE COMPÕE A ARCA DE NOÉ –III CLASSE
São as seguintes as narrativas deste livro, dispostas segundo uma ordem de dificuldade crescente:
1º Mestre grilo cantava e a giganta dormia.
2º História do macaco trocista e do elefante que não era para graças.
3º História do colho pardinho que ficou sem rabo.
4º História de “Joli”, cão francês, que boa caçada fez.
5º O filho da Felícia ou a inocência recompensada.
6º História do burro com rabo de légua e meia.
AQUILINO RIBEIRO in ARCA DE NOÉ III CLASSE  (Bertrand, 1989)»

Para todas as seis histórias são aqui reproduzidas as capas da 1ª edição (1936)  com ilustrações de Jorge Matos Chaves e da reimpressão (1976) da 2ª edição (1962) com ilustrações de Luís Filipe de Abreu.

Mestre grilo cantava e a giganta dormia

mestregrilo_capa_1936.mestregrilocantavacapa1976

História do macaco trocista e do elefante que não era para graças

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História do coelho pardinho que ficou sem rabo

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História de Joli, cão francês, que boa caçada fez

jolicaofrancescapa1936jolicapa1976

O filho da Felícia ou a inocência recompensada

filhodafeliciafilho-da-felicia-ou-a-inocenciacapa1962

História do burro com rabo de légua e meia

burroleguaemeiacapa1936Historiaburro2ed

Mestre grilo cantava e a giganta dormia

mestregrilo_1962_1976_5md«Era uma abóbora menina, muito redondinha, que saíra de uma flor tão grande e tão linda que de longe parecia pela forma um cálice de oiro, o cálice por onde os senhores bispos costumam dizer missa, e pelo brilho estrela caída do céu. Atraídas pela cor viva e o perfume, que era brando mas suave, zumbiam-lhe as abelhas em volta e um grilinho viera com a caixa de música às costas acolher-se à sua sombra e ali fizera a lura. Perto, dentro de seus buraquinhos, viviam dois ralos, e uma cigarra passava a maior parte do tempo empoleirada numa das folhas da aboboreira a cantar.
Ora, com os dias, a flor murchara e no seu pedúnculo começou a crescer a abóbora redondinha. Era na entrada do Verão e à força de comer do solo, e beber do regadio, um pouco também entorpecida pelo calor, levava a vida a dormir. Crescia e dormia, dormia e crescia. Passavam por cima dela as nuvens ligeiras como caravelas e não as via; cantavam as rolas e o cuco, deixá-los cantar; batiam os manguais nas eiras, chiavam os carros da lavoura e a tudo permanecia indiferente. Cresceu, cresceu, e já espigadota, certa noite, mais quente, estranho ruído acordou-a. Que fanfarra era aquela? Pôs- se à escuta. As rãs do charco clamavam:
─ Dai-nos sol! Dai-nos sol!
Curioso, não pediam rei, pediam sol:
─ Dai-nos sol! Dai-nos sol!
Os ralos e a cigarra acompanhavam:
─Solzinho! Solzinho! Solzinho!
O grilo arpejava:
─ E que rico, rico! Que rico, rico! Rico!
E os sapos lá do fundo do campo em coro trauteavam:
─ Sol, sol, sol! Sol, sol, sol, canta rouxinol! Sol, sol, sol!!!
Que tinham aqueles doidos para fazerem tal banzé em vez de aproveitar o tempo para dormir?! O grilo, que lhe ficava mais perto, foi quem mais a intrigou. Muito negrinho, todo entregue à inspiração, lá ia tocando os pratos, que é como quem diz movendo as asas de ébano, com risquinhas de oiro, dum lado para o outro. Que dianho de bicharoco tão patusco e ridículo que não deixava dormir à gente o soninho descansado! E não se contendo mais, gritou-lhe:
─ Eh lá, seu casaca! Você não pode calar a caixa? Com tal brequefesta como hei-de eu dormir?!
─ Ora a palerma! – retorquiu o grilo, escandalizado. ─  Não querem lá ver, tem-se na conta de menina e é tão mona. Ah! Sua calaceira, cante, cante connosco a chamar o Sol que se não demore muito detrás dos montes e nos traga alegria e claridade.
─ Estou mesmo para isso! Olhe, sabe que mais, outro ofício e deixe dormir quem tem sono.
─ Outro ofício!… Essa não é má! Saiba, sua estúpida, que eu nasci para cantar. Tenho-o como um dever. Quando não cantar, rezem-me por alma. E chocando as asas tornou à cantiguinha:
─ Sol rico! Rico, rico! Rico…
E, em coro, sapos, ralos, rãs, cigarras, respondiam pela várzea fora:
─  Sol, sol, sol! Sol… E embalada pela serenata da noite a aboborinha voltou a adormecer. (…)» (AN, 1989, pp.11,12,13)

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