ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

Category Archives: Um escritor confessa-se

«Ao fim da segunda época, fiz o meu exame papagueante como os antigos escolares da Ponte dos Asnos.

«Ao fim da segunda época, fiz o meu exame papagueante como os antigos escolares da Ponte dos Asnos. Que sabia eu, que sei ainda hoje, que saberiam os mestres que me examinaram?! Em verdade, o português nunca aprendeu outra coisa que não fosse rezar. Nunca aprendeu a pensar, nem lhe consentiriam pensar livremente. Jamais lhe cultivaram esta faculdade perigosa, o espírito, no que tem de original e altivo. Tanto a Igreja, como a Realeza quiseram-no sempre carneiro e nutrindo-se no prado sujo das ideias feitas. À retaguarda, a censura e o Santo Ofício tinham sido os instrumentos perfeitos deste recalcamento e repressão. Uma seara pedagógic a que só produz onagros utilitários, inteligências rotineiras e sábios asmáticos implica um terreno preparado, vessado desde longe, de modo a deter o limo e húmus para que nele só possa florescer, medrar, produzir opimos frutos este bamburrar, ou melhor, este bomburral lusitano.
Pois que nem eu nem os mestres sabíamos de filosofia mais que o formulário, passei nemine discrepante, apto a enveredar pela disciplina teológica até papa. “Que lindo bispo!” – poderia supor com lógica antevisão o Albino alfaiate, uma segunda vez que se atofasse nas trutas de escabeche de minha mãe.»

Um escritor confessa-se (Bertrand, 1974) , pp. 46, 47

“No fim da vida, em pleno vigor de subtileza técnica…”

(…)

«No fim da vida, em pleno vigor de subtileza técnica (lembremo-nos da viagem de Telmo e Dionísia na caleça de A Casa Grande de Romarigães), desmentia os leitores opacos que, com o parodoxal espírito de superioridade dos ignorantes, gozavam com o confessarem-se analfabetos, espalhando a torto e a direito que só conseguiam lê-lo de dicionário em punho. Como se um escritor devesse limitar-se a aprender a arte de embalsamar as palavras de todos os dias e não ousar arrancá-las dos sepulcros e estratificações do tempo, reinventando-as, completendo-as até, ressuscitando en fim o que pareceia morto para sempre. (…)»
José Gomes Ferreira (Março, 1974)- “Uma inútil nota preambular”
in Aquilino Ribeiro, Um Escritor confessa-se, Bertrand

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