ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

Category Archives: Cinco Reis de Gente

“Soutos duma banda, soutos doutra…” (Cinco reis de gente)

«Soutos duma banda, soutos doutra, entrávamos para o Codeçal por uma cancela de dois batentes, pintada a zarcão, num ressalto do caminho velho. Ao fundo chamejava o lume de água, relances instantâneos do regato que ia serpenteando atufado no gordo terrunho; da parte de cima, ao Norte, protegia a propriedade do vento galego papa-feijões um morro vestido de giestas e castanheiros tão antigos e soberbos que nem os mais idosos da terra se lembravam de os ter visto diferentes. Esses castanheiros, mesmo no inverno, despidos de folhas e com os longos ramos hirtos e desorbitados, descerravam uma magnífica e impávida beleza. Não sei bem a que título os associei eu às sombras que pairaram tutelares sobre o meu berço. Talvez pelo seu gigantismo. O amor e a admiração nas crianças compraz-se dos extremos. Debaixo da sua roda, com efeito, eu sentia-me como que protegido por boas e invisíveis fadas.
A primeira vista há uma desproporção flagrante entre o porte dum castanheiro e o tamanho dos frutos que produz. Mas as castanhas são tão bonitas com sua oval fantasiosa, seu sépia de veludo, tão ternas quando espreitam juntinhas às duas, às três e até às quatro, inclusa a boneca, do ouriço arreganhado, tão bonitas até mesmo no chão, uma das faces plana, outra convexa à semelhança da broa no açafate, que o equilíbrio se perfaz na pulcritude e quantidade. Além de planta eminentemente social ─ pão partido em pequeninos ─ a pompa que põe em seu amanho constitui um ciclo de sumptuosidade botânica que se reflectiu ─ ouso imaginá-lo ─ na minha formação. Eu admirava os castanheiros, é certo que de admiração subconsciente, como aos paquidermes nos panoramas zoológicos.
No Codeçal havia desses colossos, patriarcas seguramente do reino vegetal nas redondezas. Um longal e velhinho tinha no toro uma toca tão vasta que meu pai mandou armar ao centro uma mó de moinho em que nos serviam as refeições. Quando os seus ouriços começavam a dourar, era esplêndido como uma catedral ao sol. Eu, sempre que ia à fazenda, o meu primeiro acto era dar-lhe: os bons dias. Mentalmente, já se deixa ver, quando não meu pai, que não tinha nada de poético nem de metafísico, faria troça de mim.
Um outro, da espécie chamada da Demanda, ficava rente ao corgo, e rijo e fero na pujança dos anos, erguia para o céu altas e roliças guias. Numa delas lembro-me ainda, negrejava o orifício impecâvelrnente redondo, um pouco menor que o batoque duma pipa, cavado pelo peto real. Anos a fio ali morou. Quando desapareceu, a toquinha tornou-se feudo privativo duma poupa que todas as primaveras ali vinha criar. Depois, uma vez que os filhos saíam do ninho com seus pentes sevilhanos na cabeça, asa saraivada a espadanar o céu com meias rotações au ralenti era como se rendilhasse a paisagem uma exótica e fútil graça.
Das vergônteas engalriçadas de seiva, que lhe nasciam, como os pêlos na gente de idade, pelo tronco, fazia-me meu pai, friccionando-as com o cabo do canivete de modo a despegar a casca do alburno, as mais ledas gaitinhas deste mundo. Eram de vária forma e musicalidade, apitos, pífaros, ocarinas, em tudo iguais àquelas que os deuses silvanos deviam tanger nos tempos áureos da Terra. Temporão de qualidade, as suas primeiras castanhas eram para assar. Às bonecas ─ não há ninguém que não saiba que as bonecas são as castanhas chochas que lembram pela concavidade barcos moliceiros ─ cuspia-se-lhes dentro e punham-se direitas sobre uma brasa. Era um regalo vê-las inchar como a rã de Esopo. A gente queria averiguar do sexo do nascituro de tal e tal mulher, que andasse com a barriga à boca ─ eu já sabia, mas o segredo guardava-o só para mim, que os meninos não vinham expressamente de Paris. Se a boneca dava estoiro, era rapaz; se se esfoirava, era menina.»

Aquilino Ribeiro (1948), Cinco Reis de Gente, Lisboa: Livraria Bertrand (3ª ed.), pp.86, 87,88

Anúncios

“No quintal um cipreste…” (Cinco reis de gente)

«No quintal um cipreste, na horta contígua da Leopoldina outro, dois belos exemplares do Cupressus fastigiaia, piramidais e exclamativos, faziam imponente plantão aos mortos. O nosso era mais velho e olímpico, mas diminuído por uma pelada que a meio lhe punha a descoberto a nervação fascicular. Ambos eles se haviam tornado densíssimas cidades de pardais. Na Primavera os garotos, seus encarniçados salteadores, furavam como esquilos, por eles acima. E, do fundo ao alto, sob a carapaça de folhagem, espécie de bainha de astracã sem costura, saqueavam os ninhos.
Estes ciprestes, quando nos dias de inverno eu ia esmurrar o nariz contra as vidraças em que a chuva rufava e desdobrava suas toalhas de água, pareciam entesar-se ainda mais na corpulência de bronze. Batidos pelo vento, não gemiam como as demais árvores. Também não esbracejavam maciços como eram, apenas inclinando levemente a coruta esguia, percorridos por um brando tremor. Eu olhava para eles, assim mudos, fixos e sobranceiros, e recebia deles uma lição de altitude e de firmeza. Em verdade, tinha a impressão que eles já não cresciam mais. Sempre os via da mesma estatura, em seu alinho verde-negro, de arremesso para o céu a espicaçar as nuvens. Pelas noites grandes acontecia que, tornado de insónia, ouvisse um leve e longo frémito. Eram eles. Tal frémito, imbuído de certa doçura, lembrava o refungar duma seta voando. Mas não era mais que um arranhão na paz geral. Surdia e apagava-se. E em minha pequenez, submerso no negrume, vinham¬-me à lembrança os gigantes carrancudos e incrivelmente soberbos, com a história dos quais a tia Custódia descondensava as birras do seu menino. Também os ciprestes estavam apostados como eles a guardar um vau, pois não estavam…?! A sua égide estendia-se até mim. E recobrava o sono, sereno e confiado.
Sussurrar, os meus belos ciprestes só nas noites de vendaval o faziam. Mas, ainda dessa vez, o seu sussurro não me parecia mais que o eco dum eco ou fabordão melodioso a sossobrar ao longe. Nada que se parecesse ao estardalhaço que ia por soitos e pinhais. Aqui o vento lançava-se com bruto ímpeto do alto da serrania. Nem uma manada de toiros. Não lhe chamavam apropriada¬mente o boisana, como ao outro, que bufava de Leste, o iscariote pelo que tinha de pérfido, ríspido e verrumador? (…)»
Aquilino Ribeiro (1948), Cinco Reis de Gente, Lisboa: Livraria Bertrand (3ª ed.), pp.69 e 70.

%d bloggers like this: