ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

Category Archives: 2 Outras obras

“A noite foi dobando e começaram os galos a cantar…”

«A noite foi dobando e começaram os galos a cantar. Primeiro deitou alvorada o galo da Rita Cismas, aquele churro galaroz com esporões de guerra e polainas de montador, crista em serrilha, e uma face branca, glabra, acima duns barbilhões tão compridos e vermelhos que parecia andar sempre a rir-se do mundo, o mariola. Cantou uma vez, e logo à sua solfa cheia, consolada, de cónego da Sé, respondeu em falsete o pernaltudo da Rosa Salamim, que tinha um penacho mais rútilo e vistoso que mestre de filarmónica. Depois atirou o alamiré o seu galaripo de pernas de retrós, que contava menos de ano e já arrastava a asa às frangas. E logo do poleiro do Zé da Ponte, outra garganta grave, meio fanhosa, de velho frascário, trauteou uma gargalhada. Mas o galaripo não era bicho para embaçar e, uns após outros, como por achincalhe, ficou soltando esganiçados e vibrantes quiquiriquis. Agora, mais além, acordava o galo do Rabecas, crista talhada em papoila, pernas grossas e bem calçadas, o ai-jesus das fêmeas e o terror dos parceiros. Plantado em aparato de batalha diante do galo da Rita Cismas, o único que lhe fazia sombra, com o olhinho em lume, o topete eriçado, a plumaceira de furta-cores a faiscar em labareda, uma águia real não inculcava mais soberbia. Gordo como lontro, também não ficava mal com orelha de porco e feijão manteiga a temperar a caçoila dum cristão! O grande goelas de odre salvou três vezes e, com uma fatuidade digna, emudeceu. Umas após outras, em tom de réplica, de despique, de quem cumpre um dever, acertando a gama, atropelando-a, soltaram a sua partitura as capoeiras. Ao contrário do canto da meia-noite, que é um grito de alerta, e do cantar do segundo sono, uma salmodia em matinas, a ária da manhã era um desatar de fanfarra, de esplêndida fanfarra, difundindo por céu e terra exultação e claridade.

Ainda nas vidraças não pintava o dia, mas não podia vir longe, pois estavam em alvoroço os poleiros. Que os galos deitassem bando à sua vida, cantassem por cantar, ou entre eles houvesse coisas que dizer – altos arcanos de Deus? Pela certa que os primeiros cocoricós significavam duns para os outros: Bons dias! Bons dias! Depois, a transmitir-se, talvez, que tudo ia bem, se dormira o sono dos justos na capoeira, e o mundo lá continuava como dantes, com muita luz, com muita terra para esgaravatar. Quem sabe lá se não cantavam com a prosápia de esporear a noite, obrigá-la a correr, como pastor às chibatadas a um rebanho de cabras pretas?! Ou então que alimentassem a toleima, ainda maior, de que o sol os ouvia e, acudindo ao chamo, despertava a casa, despertava a dona, afugentava para longe o teixugo e a raposa e alumiava no cisco o grãozinho de painço e o verme reboludo com que faziam boca doce às frangas lambisqueiras?! Tudo era admissível na sabedoria do Criador!

[…]
– Eu canto – respondia um ao largo – e a comadre raposa deita a fugir.
– Eu canto – tornava outro – e o Sol deita a galopar pelas estradas do céu.
– Eu canto, e não há galinha que me ouça que não fique a suspirar por mim! – dizia um terceiro.
– Bazófia! Bazófia! Na minha bandada sou rei! Viva quem é rei!
– Viva mas é o rico dia que está a romper!
– Louvores ao Senhor que está a romper! Viva! Viva! E erguiam todos nos mais joviais cocoricós.

A velha ia assim traduzindo em rimance aquele latim das capoeiras, a par e passo que as contas puídas rolavam em seus dedos cascudos. Em plena desgarrada, um passarinho que tinha garganta de anjo desatou também a trinar. Devia ser a toutinegra, leve de sono e mais matutina que o melro, no quintal da Salamim. Era a sua uma vozinha espevitada, satisfeita, com requebros lânguidos e volatas agudas, espécie de padre-nosso pequenino rezado por uma criança. Vozeiravam os galos mais forte, e a toadilha prosseguiu, segura e maviosa como fio de água cadente no meio do arraial. E ela interrompeu a coroa a ouvir a arieta, que derramava sobre a terra cravos, açucenas, lírios brancos, e todas as flores de rosicler. A janela, porém, continuava postada como um carcereiro a noite negra, sem lua nem suspeita de arrebol.

[…]
Os galos lá iam na sabatina, e com o passarinho melodioso outros tinham entrado a cantar. Eram os pardais, os pardais dos telhados, da igreja, dos prados, essa corja de moinantes que vinham afoitos para volta dela apanhar as migalhinhas quando comia, havendo por certo chegado à conclusão de que era entrevada e não lhes podia fazer mal. Ui! e que música? Todos à uma: piu-piu-piu; xarriu-xiu-xiu, parecia escola de meninos malcriados ou o mercado dos quinze no seu auge. Louvado fosse o Senhor, todos celebravam a madrugada!

Reparando na vidraça, viu o pano da aurora colado contra ela, lívido, estanhado, sem profundura, como a água de rio turvado pelo vento. E, interrompendo devaneios e devoções, recitou a oração da manhã:
Bendita seja a luz do dia, bendito seja quem a cria; bendita a água das fontes, bendita a urze dos montes; bendito o linho na estriga, bendito o pão na espiga e o pão alvo já cozido; bendito o rico e o desvalido; bendita a ovelha que dá a lã, e o arado que lavra a chã; bendita a Virgem Santa Maria, para que nos dê um bom dia, e na hora da nossa morte nos assista e nos conforte, nos dê graça, nos dê luz, ora e sempre, amém Jesus!

Lá fora, os animaizinhos do Senhor continuavam em despicado arraial. Ouvia-se já o melro tocador de flauta e o cuco solista de trompa. Aguardariam as rolas um bocadinho mais de claridade para romper na sonatina. Agora os galos erguiam agudíssimos hossanas, como se celebrassem uma vitória. O piar dos pardais era missa pegada: todos os padres da diocese a rezar o quírie.»

Andam os faunos pelos bosques (Círculo dos Leitores, 1983)- pp.47,48,49,50

 

Toutinegra

«A velha ia assim traduzindo em rimance aquele latim das capoeiras, a par e passo que as contas puídas rolavam em seus dedos cascudos. Em plena desgarrada, um passarinho que tinha garganta de anjo desatou também a trinar. Devia ser a toutinegra, leve de sono e mais matutina que o melro, no quintal da Salamim. Era a sua uma vozinha espevitada, satisfeita, com requebros lânguidos e volatas agudas, espécie de padre-nosso pequenino rezado por uma criança. Vozeiravam os galos mais forte, e a toadilha prosseguiu, segura e maviosa como fio de água cadente no meio do arraial. E ela interrompeu a coroa a ouvir a arieta, que derramava sobre a terra cravos, açucenas, lírios brancos, e todas as flores de rosicler.»

Aquilino Ribeiro in Andam faunos pelos bosques 1983, Livraria Bertrand, S.A.R.L., Lisboa (p.98)

Notas:
1- Ler https://leraquilinoribeiromdlramos.wordpress.com/2017/07/21/a-noite-foi-dobando-e-comecaram-os-galos-a-cantar/excerto mais extenso.
2- Esta passagem integra também um dos excertos do Guia das Aves de Aquilino Ribeiro

Sonho de uma noite de Natal

Sonho_de_uma_noite_de_Natal« […] Como aquela fosse uma noite muito santa e muito álgida – o Salvador ia nascer nas palhas para lembrar aos homens que vêm do nada e para lá caminham – mãe e filha se deixaram ficar ao lume, tão perto, que a chama do toro de carvalho, reatando-se de pois de sopitar, alumiava mais que a candeia. A Mãe no seu luto de viúva, chaile (sic) roto pelos ombros, mal tinha acabado de espiar a roca e cismava; a pequena, dez anos espertinhos e medrados, com um pauzito ia atiçando o fogo, entretida a ver dançar e rodopiar os mil fogaréus da combustão. De repente, quebrando o devaneio, disse para a mãe:
− Porque é que uns são tão ricos e outros tão pobres?
− Porquê?… Fazes cada pergunta! Olha lá, os dedos da mão são todos iguais?
− Ó mãe isso não quer dizer nada. Os dedos são desiguais, não há dúvida, mas entendem-se todos muito bem uns com os outros. E que tem lá que sejam desiguais se o sangue é o mesmo, pois não é?
A mãe não soube ou não quis contestar e ouviu-se lá fora o tropel da rapaziada que preparava a fogueira do Natal naquela noite tão luminosa que, não obstante a luz da candeia, uma réstia de luar atravessava o telhado de telha vã e vinha bater no frontal como uma lança.
− Sabe, mãe, a Zezinha da Casa Grande chamou-me quando meti o gado. Só queria que vomecê visse as coisas bonitas que lá tem. Uma riqueza! E espera mais, muitas mais, que lhas há-de trazer o Pai Natal. Armaram um pinheiro no meio da sala, com muita velinha, muita velinha e neve a fingir, só para pendurarem as prendas. O Pai Natal vem de Lisboa e Paris, carregado, carregadinho que não pode com mais às costas. É verdade, mãe, que quem o manda é o Menino Jesus?
− É verdade. O Menino Jesus enche-lhe os taleigos e diz-lhe: toca, vai levar…
− Mas ele só vai levar aos ricos? À nossa casa não vem?
− Não querias mais nada?! Ele só anda pelas casas fartas, asseadas… muito branquinhas, e hão-de ter chaminé. Não sei se sabes, ele vem pela chaminé.
−Também me disse a Zezinha que vinha pela chaminé. Por causa disso pôs um sapatinho na pedra do fogão para começar logo por ali. Diz ela que no sapatinho lhe há-de deixar uma prenda que não pode adivinhar o que seja, mas que é a mais bonita e a mais cara de todas. Ó mãe, se eu pusesse a tamanca bem estateladinha aqui à lareira, onde se visse, talvez ele me deixasse lá qualquer coisa…
−Não vês que a casa não tem chaminé…
− O Pai Natal podia vir pelo telhado e levantar uma telha…bater à porta…
−O Pai Natal não bate às portas. É como o vento. Bota-se a caminho e, pronto, está logo chegadoç Se quisesse, entrava pelo buraco da fechadura. Connosco pouco adiantava. A nossa porta nem chave tem. Basta o cravelho, não há cá que roubar. Mas, como te digo, o Pai Natal do que mais gosta é de descer pela chaminé. É para que saibam que vem do céu, à ordem do Menino-Deus…
− Ó mãe, mande pôr uma chaminé na nossa casa, mande! Queria tanto que o Pai Natal cá viesse…!
−Estás na lua. Uma chaminé é para quem é. Custa dinheiro. Onde o tínhamos nós? […] »

Aquilino Ribeiro in Sonho de uma noite de Natal (Centro de Estudos Aquilino Ribeiro, 2004: 8,9 e 10)

(«O conto “Sonho de uma Noite de Natal” é publicado autonomamente em 1956, como homenagem editorial de “O Mundo dos Livros” ao autor e como expressão, em circulação restrita de “Boas Festas e Ano Novo cheio de Prosperidades”» (2004: 32). Ver 

«Ao fim da segunda época, fiz o meu exame papagueante como os antigos escolares da Ponte dos Asnos.

«Ao fim da segunda época, fiz o meu exame papagueante como os antigos escolares da Ponte dos Asnos. Que sabia eu, que sei ainda hoje, que saberiam os mestres que me examinaram?! Em verdade, o português nunca aprendeu outra coisa que não fosse rezar. Nunca aprendeu a pensar, nem lhe consentiriam pensar livremente. Jamais lhe cultivaram esta faculdade perigosa, o espírito, no que tem de original e altivo. Tanto a Igreja, como a Realeza quiseram-no sempre carneiro e nutrindo-se no prado sujo das ideias feitas. À retaguarda, a censura e o Santo Ofício tinham sido os instrumentos perfeitos deste recalcamento e repressão. Uma seara pedagógic a que só produz onagros utilitários, inteligências rotineiras e sábios asmáticos implica um terreno preparado, vessado desde longe, de modo a deter o limo e húmus para que nele só possa florescer, medrar, produzir opimos frutos este bamburrar, ou melhor, este bomburral lusitano.
Pois que nem eu nem os mestres sabíamos de filosofia mais que o formulário, passei nemine discrepante, apto a enveredar pela disciplina teológica até papa. “Que lindo bispo!” – poderia supor com lógica antevisão o Albino alfaiate, uma segunda vez que se atofasse nas trutas de escabeche de minha mãe.»

Um escritor confessa-se (Bertrand, 1974) , pp. 46, 47

“No fim da vida, em pleno vigor de subtileza técnica…”

(…)

«No fim da vida, em pleno vigor de subtileza técnica (lembremo-nos da viagem de Telmo e Dionísia na caleça de A Casa Grande de Romarigães), desmentia os leitores opacos que, com o parodoxal espírito de superioridade dos ignorantes, gozavam com o confessarem-se analfabetos, espalhando a torto e a direito que só conseguiam lê-lo de dicionário em punho. Como se um escritor devesse limitar-se a aprender a arte de embalsamar as palavras de todos os dias e não ousar arrancá-las dos sepulcros e estratificações do tempo, reinventando-as, completendo-as até, ressuscitando en fim o que pareceia morto para sempre. (…)»
José Gomes Ferreira (Março, 1974)- “Uma inútil nota preambular”
in Aquilino Ribeiro, Um Escritor confessa-se, Bertrand

“Soutos duma banda, soutos doutra…” (Cinco reis de gente)

«Soutos duma banda, soutos doutra, entrávamos para o Codeçal por uma cancela de dois batentes, pintada a zarcão, num ressalto do caminho velho. Ao fundo chamejava o lume de água, relances instantâneos do regato que ia serpenteando atufado no gordo terrunho; da parte de cima, ao Norte, protegia a propriedade do vento galego papa-feijões um morro vestido de giestas e castanheiros tão antigos e soberbos que nem os mais idosos da terra se lembravam de os ter visto diferentes. Esses castanheiros, mesmo no inverno, despidos de folhas e com os longos ramos hirtos e desorbitados, descerravam uma magnífica e impávida beleza. Não sei bem a que título os associei eu às sombras que pairaram tutelares sobre o meu berço. Talvez pelo seu gigantismo. O amor e a admiração nas crianças compraz-se dos extremos. Debaixo da sua roda, com efeito, eu sentia-me como que protegido por boas e invisíveis fadas.
A primeira vista há uma desproporção flagrante entre o porte dum castanheiro e o tamanho dos frutos que produz. Mas as castanhas são tão bonitas com sua oval fantasiosa, seu sépia de veludo, tão ternas quando espreitam juntinhas às duas, às três e até às quatro, inclusa a boneca, do ouriço arreganhado, tão bonitas até mesmo no chão, uma das faces plana, outra convexa à semelhança da broa no açafate, que o equilíbrio se perfaz na pulcritude e quantidade. Além de planta eminentemente social ─ pão partido em pequeninos ─ a pompa que põe em seu amanho constitui um ciclo de sumptuosidade botânica que se reflectiu ─ ouso imaginá-lo ─ na minha formação. Eu admirava os castanheiros, é certo que de admiração subconsciente, como aos paquidermes nos panoramas zoológicos.
No Codeçal havia desses colossos, patriarcas seguramente do reino vegetal nas redondezas. Um longal e velhinho tinha no toro uma toca tão vasta que meu pai mandou armar ao centro uma mó de moinho em que nos serviam as refeições. Quando os seus ouriços começavam a dourar, era esplêndido como uma catedral ao sol. Eu, sempre que ia à fazenda, o meu primeiro acto era dar-lhe: os bons dias. Mentalmente, já se deixa ver, quando não meu pai, que não tinha nada de poético nem de metafísico, faria troça de mim.
Um outro, da espécie chamada da Demanda, ficava rente ao corgo, e rijo e fero na pujança dos anos, erguia para o céu altas e roliças guias. Numa delas lembro-me ainda, negrejava o orifício impecâvelrnente redondo, um pouco menor que o batoque duma pipa, cavado pelo peto real. Anos a fio ali morou. Quando desapareceu, a toquinha tornou-se feudo privativo duma poupa que todas as primaveras ali vinha criar. Depois, uma vez que os filhos saíam do ninho com seus pentes sevilhanos na cabeça, asa saraivada a espadanar o céu com meias rotações au ralenti era como se rendilhasse a paisagem uma exótica e fútil graça.
Das vergônteas engalriçadas de seiva, que lhe nasciam, como os pêlos na gente de idade, pelo tronco, fazia-me meu pai, friccionando-as com o cabo do canivete de modo a despegar a casca do alburno, as mais ledas gaitinhas deste mundo. Eram de vária forma e musicalidade, apitos, pífaros, ocarinas, em tudo iguais àquelas que os deuses silvanos deviam tanger nos tempos áureos da Terra. Temporão de qualidade, as suas primeiras castanhas eram para assar. Às bonecas ─ não há ninguém que não saiba que as bonecas são as castanhas chochas que lembram pela concavidade barcos moliceiros ─ cuspia-se-lhes dentro e punham-se direitas sobre uma brasa. Era um regalo vê-las inchar como a rã de Esopo. A gente queria averiguar do sexo do nascituro de tal e tal mulher, que andasse com a barriga à boca ─ eu já sabia, mas o segredo guardava-o só para mim, que os meninos não vinham expressamente de Paris. Se a boneca dava estoiro, era rapaz; se se esfoirava, era menina.»

Aquilino Ribeiro (1948), Cinco Reis de Gente, Lisboa: Livraria Bertrand (3ª ed.), pp.86, 87,88

“No quintal um cipreste…” (Cinco reis de gente)

«No quintal um cipreste, na horta contígua da Leopoldina outro, dois belos exemplares do Cupressus fastigiaia, piramidais e exclamativos, faziam imponente plantão aos mortos. O nosso era mais velho e olímpico, mas diminuído por uma pelada que a meio lhe punha a descoberto a nervação fascicular. Ambos eles se haviam tornado densíssimas cidades de pardais. Na Primavera os garotos, seus encarniçados salteadores, furavam como esquilos, por eles acima. E, do fundo ao alto, sob a carapaça de folhagem, espécie de bainha de astracã sem costura, saqueavam os ninhos.
Estes ciprestes, quando nos dias de inverno eu ia esmurrar o nariz contra as vidraças em que a chuva rufava e desdobrava suas toalhas de água, pareciam entesar-se ainda mais na corpulência de bronze. Batidos pelo vento, não gemiam como as demais árvores. Também não esbracejavam maciços como eram, apenas inclinando levemente a coruta esguia, percorridos por um brando tremor. Eu olhava para eles, assim mudos, fixos e sobranceiros, e recebia deles uma lição de altitude e de firmeza. Em verdade, tinha a impressão que eles já não cresciam mais. Sempre os via da mesma estatura, em seu alinho verde-negro, de arremesso para o céu a espicaçar as nuvens. Pelas noites grandes acontecia que, tornado de insónia, ouvisse um leve e longo frémito. Eram eles. Tal frémito, imbuído de certa doçura, lembrava o refungar duma seta voando. Mas não era mais que um arranhão na paz geral. Surdia e apagava-se. E em minha pequenez, submerso no negrume, vinham¬-me à lembrança os gigantes carrancudos e incrivelmente soberbos, com a história dos quais a tia Custódia descondensava as birras do seu menino. Também os ciprestes estavam apostados como eles a guardar um vau, pois não estavam…?! A sua égide estendia-se até mim. E recobrava o sono, sereno e confiado.
Sussurrar, os meus belos ciprestes só nas noites de vendaval o faziam. Mas, ainda dessa vez, o seu sussurro não me parecia mais que o eco dum eco ou fabordão melodioso a sossobrar ao longe. Nada que se parecesse ao estardalhaço que ia por soitos e pinhais. Aqui o vento lançava-se com bruto ímpeto do alto da serrania. Nem uma manada de toiros. Não lhe chamavam apropriada¬mente o boisana, como ao outro, que bufava de Leste, o iscariote pelo que tinha de pérfido, ríspido e verrumador? (…)»
Aquilino Ribeiro (1948), Cinco Reis de Gente, Lisboa: Livraria Bertrand (3ª ed.), pp.69 e 70.

“O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso…” (A Casa Grande de Romarigães)

o-vento-que-é_um_pincha_no_crivo_devassoCasagrande de roamarigães

Em 2005 publiquei este texto no Dias com Árvores

«O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente. Volveu a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se da cela e pulou no espaço. Que pára-quedista !
Precipitado tão de alto do pinheiro solitário, balouçou-se um instante e ensaiou um voo oblíquo. A meio caminho volteou, rodopiou, viu as nuvens ao largo, a terra em baixo e, saracoteando a fralda, desceu em espiral. Poisou em cima duma fraga, ligeiro como um tira-olhos. Mas novo pé-de-vento atirou com ele para a banda, quase de escantilhão, e a aleta, tomando-se de imprevisto fôlego, arrebatou-o para mais longe. Foi cair numa mancheia de terra, removida de fresco pelos roçadores do mato, e ali permaneceu à espera que pancada de água ou calcanhar de homem o mergulhasse no solo, dado que um pombo bravo o não avistasse e engolisse. 

por_uma_tarde_fosca_de_outubro_casagrande_de_romarigaes

Em 2004 publiquei este excerto no Dias com Árvores

Também ali perto, por uma tarde fosca de Outubro, chegou um gaio, voejando de chaparro em chaparro, a grasnar mal-humorado como é próprio da raça. No saiote desbotado, as duas pinceladas de azul, azul retinto, fulguravam para que se soubesse que um gaio também é gente dos ares. Trazia no bico uma bolota, um pouco menor que o bolo que o corvo costumava levar à cova de Daniel, mas para ele mais importante. Dispunha-se a comer a merenda bem amargada, quando deu com os olhos no mariolado vizinho com quem bulhara uma Primavera inteira por causa da gaia, depois sua mulher. Já esse tal, rancoroso e mau, dava jeitos de querer investir, penas riças, garras desembainhadas, a asa possuída de frenesim. Que remédio senão preparar-se para o receber condignamente!
E deixou cair a glande. Esta foi bater na face zenital dum velho toro, saltou de ricochete para o lado, e aninhou-se muito aninhada num monte de folhas secas e argalhos. Ninguém a via, nem ela via a mais pequena nesga do mundo.

Os dois gaios, depois de trocarem muitos gritos de cólera e darem a sua bicada, mas sem que corresse sangue, despediram. O mais rela e pundonoroso pulou ao chão a procurar a sua rica bolota. Procurou, tornou a procurar pincharolando dum lado para o outro e introduzindo por toda a parte, taladas e covilhas, o olho finório e matuto, mas nada descobriu. Soltou duas ou três vezes a sua voz ralhada a conjurar os deuses daquele desaforo, perdeu a paciência. E saraivando, batendo a asa, ainda meio atrida da rixa, lá foi para outro carvalhal onde havia que pilhar.

A bolota taluda ficara ali muito quieta, muito bem refastelada em virtude do próprio peso, enterrada que nem pelouro de batalha depois de passarem carros e carretas. Que fazer senão deitar-se a dormir?! Dormiu uma hora ou uma vida inteira, quem o sabe?! Um laparoto veio lá de cascos de rolha, rapou a terra, fez um toural, aliviou-se, e ela ficou por baixo, sufocada sem poder respirar, em plena escuridão. Estava no fim do fim?
Um belisco, e do seu flanco saiu como uma flecha. Era de luz ou de vida? Era uma fonte ou antes um cântico de ave, de água corrente, de vagem a estalar com o sol, dum insecto na sua primeira manhã, música trilada da terra ou das esferas? Era tudo isto, encarnado no fogo incomburente que lhe lavrava no flanco, verbo que acabou por irradiar do próprio mistério do seu ser.

Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota, que a ave deixou cair no solo, repetido o acto mil vezes, gerou-se a floresta. Acudiram os pássaros, os insectos, os roedores de toda a ordem a povoá-la. No seu solo abrigado e gordo nasceram as ervas, cuja semente bóia nos céus ou espera à tez dos pousios a vez de germinar. De permeio desabrocharam cardos, que são a flor da amargura, e a abrótea, a diabelha, o esfondílio, flores humildes, por isso mesmo troféus de vitória. Vieram os lobos, os javalis, os zagais com os gados, a infinita criação rusticana. Faltava o senhor, meio fidalgo, meio patriarca, à moda do tempo. Ora, certa manhã de Outono…»

Aquilino Ribeiro, A casa grande de Romarigães: crónica romanceada (1957). Lisboa : Bertrand, cop. 1985

%d bloggers like this: