ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

Category Archives: O Livro de Marianinha

Um domingo, meia manhã…

umdomingopelamanhã

«Um domingo, meia manhã, que o feitor
me quis mostrar uma cepa com pintor,
vi um passarinho, cor da estamenha,
extático num ramo, ao pé da azenha,
diante dum pantafaçudo caracol

─Olhe, menino, a ave é o rouxinol,
e lá estão ambos em charla discreta.
Ouviu-lha um tipo, que era poeta:

─Então de passeata ao sol,
Maria do Caracol?.!

─Qual o quê, senhor rouxinol,
mourejando para criar a prole.
E Vossa Mercê, cantando à noite e no arrebol … ?
Ouvi-lhe ontem a canção em bemol,
para o ouvir pôs-se mais tarde o Sol …

─Foi o meu noivado, tiazinha.
Trinei a melhor modinha
que tinha no repertório …

─Não ouvi foguetório …

─Com a casa às costas podia ouvir … ?

─Mal, muito mal. À sina não há que fugir.
Mas não se vá sem resposta:
quis empregar-me na mala-posta,
levar recados, trazer cartas e jornais
tenho medo de petos e verdiais.
E para aqui ando, gozando o meu serpol,
de corninhos ao sol,
ouvindo-o, senhor rouxinol,
cantar e recantar nos castelos de Almourol.
Passe muito bem, cá vou, de meu mole,
Para o Ferrol.»

(in O Livro de Marianinha, 3ª ed. (2010), p.25 e 26.
fonte

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Leva o corvo um recado

«Leva o corvo um recado
e está desnorteado.
Não ouves como berra
do céu para a terra:
-Coá! Coá! Coá!
É por aqui, ou por acolá?»

in O Livro de Marianinha (Bertrand, 2010, p. 67) fonte

“O que está feito, está feito / viva o meu amor-perfeito!”

oquestafeitoestafeito_marianinha_aquilino_ribeiro1«O que está feito está feito,
viva o meu amor-perfeito!» (p.51)

“Rompe logo um coro em tom maior…”

rompelogoumcoro_marianinha_aquilino

Ler o poema completo aqui

Natércia Rocha in “Os livros que Aquilino Ribeiro escreveu para as crianças”

NaterciaRocha_Marianinha_mdNatércia Rocha, “Os livros que Aquilino escreveu para as crianças” (excerto) – in Aquilino Ribeiro- Boletim cultural Série VI, nº 05, Novembro 1985. p.52  (Ler texto completo)

“O Livro de Marianinha” de Aquilino Ribeiro… – Luísa Dacosta


……………………………..
“O Livro de Marianinha” de Aquilino Ribeiro- leitura e notas à margem e um post scriptum para Maria Keil. artigo de Luisa Dacosta publicado no 2º número (Abril, 2000) da Revista malasartes [ cadernos de literatura para a infância e juventude ]. número esgotado!

Nota: não é de todo meu costume infringir direitos de autor, mas neste caso… como revista está esgotadíssima, o artigo é de uma qualidade excepcional. Se alguém se sentir lesado, por favor comunique.

“Dedicatória” a Marianinha

«Este livro, Marianinha, leva o teu nome porque foste tu a musa – para empregar a linguagem usada nos bons velhos tempos do metro e da rima – que o inspirou. Quando o tio dedicatoriaaquilinoAníbal era criança, escrevi para ele o ROMANCE DA RAPOSA; para teu pai, em idêntica altura, a ARCA DE NOÉ, III CLASSE. Para o meu amor pequenino, compus agora estas prosas rimadas.

Leram-nas já homens de cabelos brancos como eu, esses que de velhos tornam a meninos, que, parece, lhes acharam alguma graça, e novos, a partir da idade e saber com que se entra para as escolas, que folgaram com elas.

Tenho esperança, Marianinha, que algum dia, já eu longe do mundo, as leias e te façam sorrir. E, no ocaso como estou, consolo-me à ideia que nesse sorriso perpasse a vibração da animula vagula blandula do que fui, e se vai diluindo e afundindo no golfo do tempo como as estrelinhas que abrem e fecham a pálpebra sonolenta na praia areada duma noite de verão.» (in O Livro da Marianinha, 1993, p.7)

fonte da imagem: aqui e aqui

“A casa em que nasci, Marianinha…”

acasaondenasci_marianinha-2«A casa em que nasci, Marianinha,
está voltada a Su-sueste
e tem à frente um cipreste
de atalaia à seara e vinha.

Casa já antiga, descaiada,
se o Sol lhe bate na fachada,
inunda-se a varanda de alegria;
tia Rita fia na roca
e dos buraquinhos da alvenaria
salta pardal com pardaloca.

À velha chaminé é um regalo
ver o fumo subir, fazer halo.
No montado, ouvem-se anhos balir
e derretem-se lantejoulas a luzir,
trouxe-as a Primavera no regaço
e espalhou-as pelo tojo, urze, sargaço,
sem desprezar trigal, jardim,
rampas, refúgio de erva ruim.

Manhã cedo, rompe a cantata,
nas árvores de fruto e pela mata.
Sol, Sol! ─ trauteiam os pardais,
tordos, melros e verdiais.
Sol, Sol! ─ pede o tuinho na balsa
e o auricu que apagou o candil na salsa.

E o Sol ergue-se por detrás dos montes,
e lá vem, sem olhar a vias nem pontes,
triunfal, contente como um ás,
com sua capa de arcebispo primaz.

Quem não ouve decerto sente
que vem salvando: ─ Olá, boa gente,
pássaros a voar e no ninho,
fonte, e tu a ladrar, cãozinho,
para que abram e nos deixem entrar.

Olá, meu amigo carvalho,
à minha espera no festo da colina,
e, no almarge, o carneiro do chocalho,
o cabrito, a cabrinha e até o chibo,
ronda-vos o lobo, mas sopro a neblina,
e vai mais longe buscar o cibo.
Salve, amigos, haja fartura e alegria!   (…)» (ler poema completo aqui )

Aquilino Ribeiro in O livro de Marianinha (1967)
Bertrand Editora, Lisboa, 1993, 2.ª ed., pp.11 a 14; 2010, 3ª ed.,pp. 15 a 18 (ver nota)

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O livro de Marianinha (webfolio)

O webfolio no “livebinder” já está público.

Adoro este livro! Se tivesse que escolher um livro,  apenas um, de todos os que conheço para a infância, talvez escolhesse este. 

livebinderMarianinha

“Repicam os sinos de Lisboa…”

«(…) Repicam os sinos de Lisboa,
a quem hão-de eles de repicar?
Não há charamela, teorba, sanfona,
que não soe a mais não poder soar.
Casa o marujinho da Catrineta
com uma princesinha Magalona.»

(ler todo o romancinho desta Nau Catrineta aqui )
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