ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

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Introdução à Arca de Noé III classe

«Sabes, Riquinho, a história da Arca de Noé? Muito antiga, antigamente, o Criador, indignado com as criaturas, disse a Noé, a única que achou graça em seus olhos:
─ Vou afogar o mundo; mas olha, faz -me uma arca com três repartimentos: um em baixo; outro no meio; um terceiro em todo o cimo…

Este terceiro repartimento, está bem de ajuizar, é a III classe dos comboios que a gente de pequenas posses toma de terra para terra; é a mesma III classe que nos navios carrega emigrantes de continente para continente; era ainda a imperial das diligências, que há anos a esta parte, ao desembocar de rompante com as mulas guisalheiras das estradas nocturnas, acordava as vilas adormecidas.

E ordenou a Noé o Deus irado:
─ Dos seres vivos, quer andem de seu pé, caminhem de rastos ou voem, recolherás um casal na arca. Porque vai chover a potes, sem descanso, quarenta dias e quarenta noites, e tudo o que fora dela ficar perecerá.

Não rezam as Escrituras como distribuiu Noé o reino animal pelas três classes da sua nave. Supõe-se que na I e na II foram alojados os belos felinos e plantígrados que ainda hoje costumam aparecer em África e Ásia aos caçadpres reais e se mostram empalhados nos museus e complacentes nos jardins zoológicos. Na III classe é ponto de fé que embarcou a bicharada plebeia que aceitou Noé como amo, a saber: o burro, o cavalo, o elefante, a girafa, o macaco, o cºao, o gato, o porco, a vaca, o coelho, a cabra, o galo, grilos, o compadre José Barnabé Pé de Jacaré e sua consorte Feliciana Lauriana.

De fora da arca, por lá não caberem ou porque iria ao fundo com o peso, ficaram uns animalejos mais horrendos que o nome: o pliossáurio, cujo pescoço no meio das lagunas parecia mastro de anvio naufragado; o gigantossáurio, que media uns trinta metros de comprimento e era medonho; o tiaraunossáurio, que tinha cabeça de cavalo sem orelhas, corpo de canguru, rabo de lagarto, e flutuava no rios rios, metade submerso, como um madeiro. Ficaram ainda de fora os pterodáctilos, dragões voadores grotescos e feros; o triceratops, cuja cabeça reunia tudo o que há de mais horrível em matéria de carrancas, possuía patas de martelo-pilão, cauda de salamandra, e com a tromba armada duma relha de marfim abrira um canal mais fundo e mais de presa que uma draga; o pelicossáurio, cujo lombo era revestido de membrana que lembrava panóplia de lanças. Estes monstros foram recusados na arca e, como anunciara Deus, morreram; outros porém, que não consta terem sido aboletados na arca, tais os peixes e os cetáceos, porque a a´gua é o seu elemento, julgou-se Deus, e muito bem, dispensado de dizer que se não afogavam.

Dos passageiros da III classe, ó insaciável e curioso devorador de histórias, Ico Barrabico, se ocupam estas fábulas para teu passatempo urdidas e estampadas.
Lisboa, Primavera de 1936
A.R.»

(Aquilino Ribeiro in Arca de Noé- III classe, Livraria Bertrand, 1989, pp. 7 e 8)

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