ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

Category Archives: 5- O filho da Felícia ou a inocência recompensada

“Narrativas de que se compõe a Arca de Noé – III classe”

«NARRATIVAS DE QUE SE COMPÕE A ARCA DE NOÉ –III CLASSE
São as seguintes as narrativas deste livro, dispostas segundo uma ordem de dificuldade crescente:
1º Mestre grilo cantava e a giganta dormia.
2º História do macaco trocista e do elefante que não era para graças.
3º História do colho pardinho que ficou sem rabo.
4º História de “Joli”, cão francês, que boa caçada fez.
5º O filho da Felícia ou a inocência recompensada.
6º História do burro com rabo de légua e meia.
AQUILINO RIBEIRO in ARCA DE NOÉ III CLASSE  (Bertrand, 1989)»

Para todas as seis histórias são aqui reproduzidas as capas da 1ª edição (1936)  com ilustrações de Jorge Matos Chaves e da reimpressão (1976) da 2ª edição (1962) com ilustrações de Luís Filipe de Abreu.

Mestre grilo cantava e a giganta dormia

mestregrilo_capa_1936.mestregrilocantavacapa1976

História do macaco trocista e do elefante que não era para graças

macacotrocistacapa1936historiadomacacomd

História do coelho pardinho que ficou sem rabo

coelhopardinhocapa1936coelhopardinhocapa1962

História de Joli, cão francês, que boa caçada fez

jolicaofrancescapa1936jolicapa1976

O filho da Felícia ou a inocência recompensada

filhodafeliciafilho-da-felicia-ou-a-inocenciacapa1962

História do burro com rabo de légua e meia

burroleguaemeiacapa1936Historiaburro2ed

O filho da Felícia ou a inocência recompensada

«Com a sua bolsinha de amostras às costas, tamancos ferrados trrape-trrape, carapuça na cabeça e quatro vinténs na algibeira, foi Pedro assentar praça. No quartel, depois que lhe deram o n.º 27, mandaram-no formar na parada. Botava uma boa mão-travessa acima dos mais altos. Embora mirolho, o sargento Viriato Sacatrapo não pôde deixar de reparar nele e exclamou com os ares superiores, próprios da sua patente, para um galucho que não é nada neste mundo:
─ Cáspite, que bela estampa de animal!
─ Animal será ele – replicou Pedro. Sou cristao e baptizado, Pedro da Felícía para servir a quem se der ao respeito.
─ Cala a boca, bruto! -gritou-lhe o sargento, meio encavacado, tanto mais que os oficiais riam à socapa, mas sem poder corar, porque de tez era mais vermelho que um tomate, mas um tomate a cair de maduro:
─ Mete-te na forma … Anda-me depressa! Estão prontos? … Meia volta à esquerda! …
Manobraram todos para o lado próprio, excepto Pedro, que rodou para a direita, contente que se não dissesse: um carneiro vai com os outros.
─ Idiota, não sabes distinguir a mão direita da mão esquerda? – perguntou o sargento instrutor no tom cacarejado e satisfeito de quem apanhou por baixo o irmão desastrado que lhe pisou os calos.
Em seu embaraço olhou o galucho ora para uma mão, ora para a outra, como se pela primeira vez visse tais extremidades do corpo ou lhe revelassem acerca delas qualquer coisa muito patusca em que não tivesse feito reparo.
─ Não sabes? … A direita é esta … esta. Espera, para te não enganares outra vez, mete-se-lhe lá uma pedra – e o sargento Viriato Sacatrapo procurou uma pedra que meteu na mão do recruta, acrescentando:
─ Aperta-a bem; não a deixes cair. Onde estiver a pedra, já sabes, está a mão direita. Percebeste? Deixa agora ver a outra mão … Repara bem, não tem nada dentro; é a esquerda. Não tem nada dentro, quer dizer, não tem lá a pedra. Estás percebendo? Temos, pois, que a mão que não tem pedra é a esquerda, es-quer-da-aaa …
─ Na minha terra chamam-lhe a canhota- observou Pedro.
─ Canhota ou esquerda é a mesma coisa. É contigo o nome que lhe queiras dar. O que eu te peço é que não esqueças: a mão que tem pedra é a direita; a mão que não tem pedra é a esquerda. Não custa nada a entender. Entendeste tu?
Acenou Pedro que sim e o sargento em voz heróica comandou:
─ Sentido! Esquerda volver … marche!
filhodafelicia97A coluna pôs-se em movimento na direcção indicada, salvo aquele troço que ficava aquém de Pedro e que ele não deixava avançar, tendo rompido o passo em sentido oposto e ali batendo a bota.
─ Meu alarve! – berrou o sargento. – Não te disse que a esquerda é do lado da mão que não tem pedra?… Mostra lá …
Abriu Pedro a mão e com o assombro de todos a pedra lá estava. Uma pedrinha pequenota como um ovo, branca, a rir-se daquilo tudo. Também os oficiais desataram às gargalhadas, enquanto o sargento corria para ele de punho fechado, julgando que era caçoada:
─ Mudaste a pedra, alma do diabo. Para que mudaste a pedra?
─ Não senhor, não mudei. Apanhei-a do chão.
O sargento deu-lhe uma cotovelada com desdém mas a certa distância, não fosse o bruto coucinhar. Pedro, como o roble que fica indiferente ao vendaval, nem estremeceu. Fez-lhe depois o sargento Viriato Sacatrapo deitar fora a pedra da mão esquerda e guardar a da mão direita; apertando-lhe em seguida os dedos contra ela, ensinou com santa paciência:
─ Esta é a direita, cavalo. A direita! Aquela, portanto, que não tem pedra é a esquerda.
─ Mas se a direita é direita porque tem a pedra, se eu meter também uma pedra na esquerda fica tão direita como a direita, ou está a mangar comigo? -respondeu o galucho, além de raciocinador, repontão.
Em resposta o sargento Viriato Sacatrapo deu-lhe uma estalada e Pedro, vendo-se ofendido e esquecendo-se de que não estava em arraial da sua terra, apanhou do chão a pedra do malefício, a pedra zombeteira, e com quanta força tinha jogou-lha à cabeça. E se bem que fosse duro o casco do sargento Viriato Sacatrapo e protegido por basta guedelha, o casco rachou e espichou o sangue.(…)  (AN, 1989, pp. 97, 98, 99)

%d bloggers like this: