ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

História do macaco trocista e do elefante que não era para graças

«(…) O macaco veio para o elefante com sete falinhas doces:
─ Não há dúvida, és um espertalhão. Sabes, sou teu amigo verdadeiro e tu também és meu. Não abanes as orelhas que me posso constipar com a corrente de ar. Agora sempre te digo: o teu defeito é seres peludo, peludo como um macaco, por dentro já se deixa ver, que por fora levas a palma à casca do carvalho. Ouve lá: queres tu vir a uma patuscada comigo? .. Não te hás-de arrepender … Gostas de mel? Pois se gostas, anda daí. Quero dar-te mel pelos beiços. .
O paquiderme hesitava, mas falar-lhe em mel era como acenar a porco com bolota. E confiado na sua perspicácia e não menos na sua fortaleza seguiu o macaco jurando consigo:
─ Se me enganas desta vez, mono do diabo, vês uma fona!
O macaco levou-o a um colmeal que acabava de ser crestado. Ao pé havia um casebre, com sua janela gradeada em parede de pedra e cal e porta com chave. Apontando a janelinha que estava aberta, mas defendida dos mal-intencionados por varões de ferro, proferiu o símio:

AN_1989_39md

Ilustração de Luis Filipe de Abreu

─ O mel está lá dentro. Eu salto, tu metes a tromba pela grade e vais apanhar um fartote que te há-de lembrar toda a vida.
─ Olha lá, antropóide amigo ─disse o elefante, quebrando a sua natural reserva ─ que abelhas são aquelas que entram e saem pela janela? ..
─ Se queres que te responda, não me dês tratamento de cerimónia. Nasci macaco, macaco hei-de morrer. Assim chamavam a meu avô e a meu trisavô que esteve na arca de Noé. As abelhas… …Devem ser abelhas vagabundas que andam atrás dos favos que lhes tiraram.
─ Não terão elas enxame na casa? … Não é a primeira vez que tal sucede …
─ Nada disso. Não vês os cortiços cá fora? Bem, eu vou entrar …
O macaco amachucou-se quanto basta para enfiar pelo vão da grade. Uma vez no interior ordenou para sócio na sua detestável gíria: .
─ Estende a mangueira …

A medo, pois era desconfiado e prudente, introduziu o elefante a tromba. Descendo, depois, no desconhecido., o seu imenso apêndice ia fairando. Não havia que duvidar; cheirava a mel que até crescia água na boca. O macaco lá dentro gritava:
─ Baixa mais, coraçãozinho, baixa mais! Afoito …
A tromba descia.
─ Baixa ainda, botão de oiro!
A tromba suspendia-se desconfiada nos espaços misteriosos.
─ Baixa, baixa , meu anjo.
Bem baixou ele, mas quando imaginava mergulhar na panela do mel caia em cheio de cima dum enxame. (…)» (AN, 1989, pp.38, 39 e 40)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: