ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

História do burro com rabo de légua e meia

historiadoburro_1962_1976_27«Chegaram às portas de Lisboa por uma manhã tão radiosa e azul que o moleiro julgou, por se tratar de cidade de tanta maravilha, que o céu estava forrado de cetim azul como os presépios. As peixeiras pregoavam o carapau e as vozes eram bonitas e claras como só poderiam ser as das sereias.
Que fazes, que vais fazer, Aniceto, acolheu-se à estalagem que um patrício seu, homem de boas intenções, explorava ao Arco do Cego. Mas logo na manhã seguinte lhe batia à porta a polícia.
─ Que deseja a polícia deste pobre de Valença do Minho? ─ disse o moleiro.
─ Está intimado a comparecer com o jumento no Terreiro do Paço, Cais das Colunas, hoje, pela duas hora da tarde.
─ Para quê, e não queda mal perguntar? ─ tornou Aniceto.
─ Lá lhe dirão. Só cumprimos “ordes”.

À hora própria estava o burrico no sítio aprazado. Uma praça da marinha dispôs o animal acima da escadaria, verificou que estava rijo de perna, sem alifafes nem matadura que lhe prejudicasse a resistência, depois pegou-Ihe da ponta do rabo e embarcou com ela num escaler. Navegou até um barco guarda-costas, garboso barco que se perfilava à distância nas águas gloriosas do Tejo. Prendeu-o à proa e volveu a terra.

O moleiro seguira toda esta rápida e interessante manobra sem compreender, de olhos arregalados. Quando lhe explicaram do que se tratava, continuou a não compreender bem, na qualidade de bicho terrestre que era. Mas percebeu que por algum tempo podia estar sossegado quanto ao seu sustento e do burrinho. Estava ali ao serviço da capitania que, por deplorável olvido, não dispunha de bóia, empregadas já todas
as outras com as muitas e variadas unidades fundeadas no porto até Belém. Em vez da bóia, o burro oferecia a amarra do seu rabo ao galhardo navio. Aí estava.historiadoburro_1962_1976_29
Olhos postos no cavalo verde de D. José, o burro valenciano teve tempo de repoisar, meditar e travar conhecimento, à vontade, com a população da capital. Traziam-lhe as damas filantrópicas torrões de açúcar e os poetas decantavam-no em verso. A tudo ele preferia a erva, a tenríssima erva do querido Minho, embora causa do seu aleijão ; mas paciente e resignado com os baldões, filosofava conformistamente em face do cavalão de bronze: afinal tudo neste mundo eram trabalhos. Qual valia mais, segurar o navio que o não levassem as ondas ou aguentar com aquele gigante em cima? (…) » (AN,1989, pp. 148 a 152.)

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