ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

“No quintal um cipreste…” (Cinco reis de gente)

«No quintal um cipreste, na horta contígua da Leopoldina outro, dois belos exemplares do Cupressus fastigiaia, piramidais e exclamativos, faziam imponente plantão aos mortos. O nosso era mais velho e olímpico, mas diminuído por uma pelada que a meio lhe punha a descoberto a nervação fascicular. Ambos eles se haviam tornado densíssimas cidades de pardais. Na Primavera os garotos, seus encarniçados salteadores, furavam como esquilos, por eles acima. E, do fundo ao alto, sob a carapaça de folhagem, espécie de bainha de astracã sem costura, saqueavam os ninhos.
Estes ciprestes, quando nos dias de inverno eu ia esmurrar o nariz contra as vidraças em que a chuva rufava e desdobrava suas toalhas de água, pareciam entesar-se ainda mais na corpulência de bronze. Batidos pelo vento, não gemiam como as demais árvores. Também não esbracejavam maciços como eram, apenas inclinando levemente a coruta esguia, percorridos por um brando tremor. Eu olhava para eles, assim mudos, fixos e sobranceiros, e recebia deles uma lição de altitude e de firmeza. Em verdade, tinha a impressão que eles já não cresciam mais. Sempre os via da mesma estatura, em seu alinho verde-negro, de arremesso para o céu a espicaçar as nuvens. Pelas noites grandes acontecia que, tornado de insónia, ouvisse um leve e longo frémito. Eram eles. Tal frémito, imbuído de certa doçura, lembrava o refungar duma seta voando. Mas não era mais que um arranhão na paz geral. Surdia e apagava-se. E em minha pequenez, submerso no negrume, vinham¬-me à lembrança os gigantes carrancudos e incrivelmente soberbos, com a história dos quais a tia Custódia descondensava as birras do seu menino. Também os ciprestes estavam apostados como eles a guardar um vau, pois não estavam…?! A sua égide estendia-se até mim. E recobrava o sono, sereno e confiado.
Sussurrar, os meus belos ciprestes só nas noites de vendaval o faziam. Mas, ainda dessa vez, o seu sussurro não me parecia mais que o eco dum eco ou fabordão melodioso a sossobrar ao longe. Nada que se parecesse ao estardalhaço que ia por soitos e pinhais. Aqui o vento lançava-se com bruto ímpeto do alto da serrania. Nem uma manada de toiros. Não lhe chamavam apropriada¬mente o boisana, como ao outro, que bufava de Leste, o iscariote pelo que tinha de pérfido, ríspido e verrumador? (…)»
Aquilino Ribeiro (1948), Cinco Reis de Gente, Lisboa: Livraria Bertrand (3ª ed.), pp.69 e 70.

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