ler Aquilino Ribeiro

"Mas, em qualquer altura, alguém que tenha a inclinação solitária, ou atenta, ou simplesmente erudita, abrirá um livro de Aquilino (…) e amará o seu verbo.» A.Bessa-Luís

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“Narrativas de que se compõe a Arca de Noé – III classe”

«NARRATIVAS DE QUE SE COMPÕE A ARCA DE NOÉ –III CLASSE
São as seguintes as narrativas deste livro, dispostas segundo uma ordem de dificuldade crescente:
1º Mestre grilo cantava e a giganta dormia.
2º História do macaco trocista e do elefante que não era para graças.
3º História do colho pardinho que ficou sem rabo.
4º História de “Joli”, cão francês, que boa caçada fez.
5º O filho da Felícia ou a inocência recompensada.
6º História do burro com rabo de légua e meia.
AQUILINO RIBEIRO in ARCA DE NOÉ III CLASSE  (Bertrand, 1989)»

Para todas as seis histórias são aqui reproduzidas as capas da 1ª edição (1936)  com ilustrações de Jorge Matos Chaves e da reimpressão (1976) da 2ª edição (1962) com ilustrações de Luís Filipe de Abreu.

Mestre grilo cantava e a giganta dormia

mestregrilo_capa_1936.mestregrilocantavacapa1976

História do macaco trocista e do elefante que não era para graças

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História do coelho pardinho que ficou sem rabo

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História de Joli, cão francês, que boa caçada fez

jolicaofrancescapa1936jolicapa1976

O filho da Felícia ou a inocência recompensada

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História do burro com rabo de légua e meia

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História do coelho pardinho que ficou sem rabo

coelhopardinho_1962_1976_5md«O avô dos coelhos era um coelho pardinho, pardinho, da cor que ainda hoje têm os coelhos do monte, olhos verdes, orelhas de acelga a nascer, e uma cauda felpuda e comprida levantada em aspa à moda dos esquilos. Passava por esperto e tinha o covil da parte de fora duma quinta murada em redondo por uma parede muito alta. Ora espreitando certo dia por um buraquinho, avistou lá dentro uma rica horta com couves, cenouras e grande variedade de legumes.
─ Hortaliça saborosa … aquela! ─ pensou o coelhinho, lambendo o beiço em seco. ─ Se eu lhe pudesse chegar o dente!… O dialho é aquele cachorro de maus fígados que está sempre na resmunguice: “Ão-ão-ão! foge que te agarro, ladrão!”

Naquela manhã pareceu-lhe o cão mais cordato e metendo a cabeça pela talada chamou:
─ Pst! pst! Tejo, ó Tejo! Dás-me uma folhinha de couve?… Tenho muita fome, quase me não aguento nas pernas … Dá-me uma couvinha dá …
Aborrecido e mal-humorado respondeu o cachorro:
─ Não, não, que ralha o meu patrão!
─ É só uma, Tejo, só uma … ─ tornou o coelhinho em voz humilde.
─ Não, não, não, que são do meu patrão! ─ repetiu o rafeiro e, confiado, deitou-se a dormir ao sol.
─ Avarento duma figa! ─ exclamou o coelhinho em voz alta, certo de que ninguém ouvia. ─ Deixa estar que tu mas pagarás … só se não puder!

Daí a instantes rebenta a um medonho ressonar. Devia ser o cão que passara a noite a correr pela quinta com medo que os larápios lhe fossem à horta ou ao meloal! Nem um órgão da Sé. Pelo sim, pelo não, o coelhinho foi espreitar pela fresta da parede.» (AN, 1989, pp. 51 e 52 )

História do coelho pardinho que ficou sem rabo

~ as casas do coelho e o seu encontro com o melro pifarista, o lagarto com olhos de topázio e o escaravelho zangarelho~

«(…) Como todo o coelho que se preza fez duas casas: uma para o frio, no coração mesmo dum tojo, tão protegida dos ventos e dos maus olhados que a comadre raposa, excogitadeira, podia passar que não dava com ela; outra para os dias bons, à sombra dum sargaço, tão a salvo de surpresas que ao mais pequeno alarme se punha ao fresco.
Dali observava o mundo, quando não sonhava ou dormia, o que costuma a fazer a título de prudência só com um olho. A terra era bonita, bem bonita, sobretudo ao nascer do Sol, regadinha de claridade, quando as gotas de orvalho reluzem, as febras de erva verdegam e os galos para as aldeias atiram às alturas vibrantes cocoricós. Evidentemente o que mais o interessava eram os outros coelhos. Não raro acontecia virem dois, três pares até às abas da sua toca e para ele era regalo e ao mesmo tempo tormento vê-los brincar. Aos pulinhos, tap-tap, aqui paro tap-tap, além escuto, chapuz, uma sapatada, chitom, ponho-me a cismar na morte da bezerra, coçando o focinho cor-de-rosa, mascando um rebento de giesta, a vida estava para eles! Vontade não lhe faltava de sair a terreiro; mas lembrava-se que onde tivera um façanhudo apêndice existia apenas um coto de carnaval, e fero e ralado deixava-se ficar no covil.

coelhopardinho_1962_1976_23mdMeia manhã, o melro, pifarista infatigável, punha-se a tocar pratos ao desfastio:
─  Claxim-claxim-claxim!
À busca, talvez, de canto em que fazer ninho, mais uma tocata, e reparava nele:
─ Claxim-claxim-claxim! Viva lá seu galopim!!
─ Fui, fui galopim! Agora triste de mim! – malucava o coelho pardo, sem tugir.

Quando o sol mais aquecia um lagarto avançava pelo campo raso, frufru, a casaca amarela polvilhada de verde-musgo a faiscar, aceso nos olhos de topázio um raiozinho de luz. Ao mais subtil rumor estacava de cabeça ao alto a observar. Não era nada e prosseguia seu caminho. Às vezes, com arte e repente que ninguém lhe supunha, abria a boca e caçava uma mosca tão bem caçada que nem ela dava fé dos abismos em que caía. E, após o breve rnanjar, adiante. Espreitando, que são bichos curiosos e desconfiados, avistava o coelho.

coelhopardinho_1962_1976_26mdDele não tinha o sardãozinho medo e saudava:
─ Olá, seu morgado!
─ Morgado … do rabo cortado – ficava ele a magicar, sem arredar pé.
E o lagarto, frufrufru lá ia, sem melindres perante o desdém do coelhinho que perdera o gosto de proferir palavras vãs e era filósof, isto é, falava para consigo e para com Deus.
Atravessavam por cima dele as aves; os abelhões; as cabras-louras; as rolas gemiam, o cuco executava o seu solo de trompa. Vinha um escaravelho:
─ Zum!!! Zum!!!
Cego de todo, levado na cantilena, espetava-se pelo tojo dentro e fatalmente chocava-se com o coelhinho. E punha-se a fungar com muita ira:
─ Zum!!! Que raio de Cafarnaum!. ..
O coelho pardo tinha nojo e levantava-se a sacudir o indiscreto:
─ Zum?… Pois que te leve Barzabum!
O escaravelho zangarelho safava-se do arame farpado do tojo, retesava as patas e, ala, lá partia, zum! zum!!! E ele ficava de novo sozinho com as cismas: um campo de trevo com coelhinhas de olhos de fogo a cabriolar e a Lua nos altos céus, bochechuda, bochechuda, a guardá-las do bicho mau. E acabava por cair no sono, com um olho só, ora o direito, ora o esquerdo, como soldados que se revezam no plantão.

Ora uma noite, bela noite de quarto crescente, tendo saído a comer, o coelho percebeu estranha bulha na mata e à cautela foi-se pondo no seguro. Era uma colónia de coelhos que vinha instalar-se na vizinhança. Dianhos os levassem mais à barca que os passou! …

(…)» (AN, 1989, pp. 64, 65, 66)

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